sábado, 25 de julho de 2020

O algodão também engana

Chien-min Chung/Getty Images

"Uma coligação de grupos de direitos humanos apela às grandes marcas de vestuário para deixarem de ser cúmplices na exploração da população Uighur

Uma em cada cinco peças de roupa com algodão no mercado internacional foi produzida com o envolvimento de trabalho forçado. A estimativa é feita pela Coligação para Acabar com o Trabalho Forçado na Região Uighur, um grupo de sindicatos e grupos da sociedade civil que lutam contra abusos nessa zona da China.
Os relatos sobre campos de concentração para a população Uighur em Xinjiang, acompanhados de notícias sobre maus-tratos diversos, incluindo a esterilização forçada de mulheres com o objetivo de reduzir a população Uighur, têm recentemente indignado o mundo.
(...) " 


In Expresso Curto de 24 julho 2020


sexta-feira, 24 de julho de 2020

Leituras partilhadas - Gostei logo do título da obra


Obrigada, Idalina, pela partilha de mais algumas leituras.
Estes excertos, para além do prazer do texto, são uma boa lição de escrita
e também de apreciação crítica.

Oxalá gostem. Eu gostei muito e vou tentar ler o livro.


Kirmen Uribe, O Dois Amigos, 2011, Planeta


Este primeiro excerto é o início do romance. No terceiro excerto, explica os passos que deu até chegar a ele.


"Os peixes e as árvores assemelham-se.
Assemelham-se nos anéis. Se fizéssemos um corte horizontal numa árvore, veríamos os seus anéis no tronco. Um anel por cada ano transcorrido: é assim que se sabe a idade da árvore. Os peixes também têm anéis, mas nas escamas. E, da mesma forma que acontece com as árvores, graças a eles sabemos quantos anos tem o animal.
Os peixes nunca deixam de crescer. Nós não, nós minguamos a partir da idade madura. O nosso crescimento detém-se e os ossos começam a juntar-se. O corpo encolhe. Os peixes, porém, crescem até morrer. Mais depressa quando são jovens e, a partir de certa idade, mais lentamente, mas sem nunca deixarem de crescer. E por isso têm anéis nas escamas.
O anel dos peixes é criado pelo Inverno. O Inverno é a altura em que o peixe come menos e a fome deixa uma marca escura nas suas escamas, porque o seu crescimento é menor durante esta época. Ao contrário do que acontece no Verão. Quando os peixes não passam fome, não permanece qualquer rasto nas suas escamas.
O anel dos peixes é microscópico, não se vê à primeira vista, mas está lá. Como se fosse uma ferida. Uma ferida que não sarou bem. E, como os anéis dos peixes, os momentos mais difíceis vão marcando as nossas vidas, até se converterem na medida do nosso tempo. Os dias felizes, pelo contrário, passam depressa, demasiado depressa e, em seguida, desvanecem-se.
Aquilo que para os peixes é o Inverno é a perda para as pessoas. As perdas delimitam o nosso tempo; o final de uma relação, a morte de um ser querido.
Cada perda é um anel escuro no nosso interior".
                                                                                                                 (pp. 15/16)




"O escritor precisa de protecção. Sobretudo no princípio. Deseja que lhe dêem confiança, ouvir dos outros que vai pelo bom caminho e que não se enganou no último cruzamento. O escritor precisa de protecção quando começa. Por isso, perguntei a opinião ao meu pai, quando publiquei a primeira coluna na imprensa, esperando receber a sua aprovação. Essas colunas eram as minhas primeiras publicações, naquele distante ano de 1998. Eram os meus inícios. Aquela primeira coluna, elaborei-a bastante e dediquei longas horas à sua redacção. Tentei que o estilo fosse o mais literário possível e saiu-me algo parecido com um breve conto. Com o tempo, aprendi que as colunas têm de ser colunas e os contos, contos. As colunas exigem uma condição que os contos não requerem: o imediato.
A resposta do meu pai foi deliberada. Não recebi o seu aplauso, mas, em compensação, respondeu-me através de uma história. Quando ele era pequeno, havia dois padres na aldeia. Cada um deles tinha a sua maneira própria de predicar a homilia. Um, Don Manuel, era próximo e as pessoas percebiam sem dificuldade o sermão que pronunciava. No entanto, o estilo do segundo cura, Don Jesús, era retórico. Não se percebia nada. Dirigia a sua homilia aos ricaços que se acomodavam nos bancos da frente da igreja. Pois bem, eu escrevia como esse cura, explicou-me o meu pai, como Don Jesús.
Sempre agradeci ao meu pai a sua franqueza. Por um lado, mostrou-me que a minha coluna era demasiado literária para um jornal. E, por outro, não deu sentenças, não proclamou «a coluna é boa», ou «é má». Socorreu-se de uma história para desenvolver o seu argumento, sem qualificações. E foi isso precisamente do que mais gostei, que um breve relato lhe bastasse para que eu compreendesse com clareza a sua lição. De facto, as histórias recolhem os matizes da realidade. E os matizes são o mais importante na vida".
                                                                                                      (pp. 43/44)



"Em Dezembro de 2002, escrevi a primeira frase do romance.
Queria uma frase com força para o princípio, como a do romance de Carson McCullers O Coração É Um Caçador Solitário. «Na cidade havia dois mudos e estavam sempre juntos.» Essa frase diz muito. Primeiro, que o romance trata de dois mudos, mas também indica a exclusão que sofrem e transparece a amizade que os une.
Ou a do romance A Campânula de Vidro, de Sylvia Plath".


quinta-feira, 23 de julho de 2020

Amália Rodrigues - "A Voz" faria agora cem anos

Outra "Estranha forma de vida"

Bebendo o ar fresco da manhã


quarta-feira, 22 de julho de 2020

A natureza tem defesas


Pelas 9.30 da manhã: flores buscando frescura

                                                  Pelas 12.20, flores protegendo-se do calor



O postal


Em Londres (e, se calhar, em todo o Reino Unido, não sei), as crianças entram na escola primária no ano letivo durante o qual fazem cinco anos.
É um ano de transição entre a pré-primária e a fase escolar seguinte. 
Acho maravilhoso ver e ouvir uma criança a desenhar números, a juntar as letras e ler palavras e frases e, com isso, mostrar prazer e alegria.
É o que se passa com a minha neta que faz cinco anos no próximo mês.
Quase todos os aniversários dela foram passados cá em Portugal, com a família reunida. 
Este ano será tudo diferente, porque o governo britânico impõe quarentena para quem chegar de Portugal. E a TAP já cancelou muitos voos (sem dar cavaco a quem já tinha pago as viagens). E existem todos os perigos da pandemia que já todos conhecemos.
Felizmente, estivemos juntos em fevereiro.
Mas só voltaremos a encontrar-nos no Natal. Se tudo correr melhor. Se os vírus estiverem mais sossegados. Se a vacina já ajudar.  Se não houver tantos surtos. Se e se e se...
E, como eu, há muitas pessoas com filhos que emigraram e com quem não vão estar este verão.
Felizmente, há o whatsapp, o facetime, o skype... mas não é a mesma coisa.
Hoje, para matar algumas saudades, vou fazer um postal para mandar à minha neta.
Pode ser que a veja e oiça a lê-lo. Pela net, é claro.

Ao sol da já quente manhã

 
 Há dias que não digo olá.  Ai este calor que 
entorpece!

Para que a horta não seque e as flores do jardim 
não murchem, rego tudo diariamente.
Faço-o pela fresca, como sempre fazia a minha 
mãe.
 
Hoje, deparei com flores deste cato e gostei da 
descoberta.
 
Não gosto muito de catos por causa dos picos, mas 
este está no mesmo sítio há bastantes anos e gosto 
dele porque a forma de crescimento é irregular. Parece um escultura que a natureza vai modelando.
 
Hoje, vi estas flores lá no alto. Achei-as belas, como todas as flores que conheço dos catos.

Mas sei que serão efémeras. 
Porém, a beleza não deixa de ser beleza, mesmo não sendo duradoura.




sábado, 18 de julho de 2020

Mais frescura à beira-mar encontrada!

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Problema resolvido

Não era difícil, afinal, dar de novo visibilidade aos comentários.

Aproveito para agradecer, mais uma vez, as vossas visitas e as vossas palavras.

Obrigada a todos.



Peço desculpa

Por motivos que (ainda) desconheço, a caixa de comentários deixou de estar visível.

Espero em breve resolver o assunto.

Enquanto tal não acontece, peço muita desculpa porque os comentários - ainda que pouco abundantes - são muito importantes para mim.

Espero, em breve, tornar visíveis de novo as vossas palavras, que agradeço do coração.



E tanta coisa aqui tão perto

Apesar de ser uma das figuras bastante ligada à minha infância e adolescência, já não a via há muito tempo.
Por causa de um trabalho, em que ela poderia colaborar com fotografias antigas, fui a casa dela, não muito longe da minha.
Ficámos no jardim.
Disse-me para me sentar junto dela. Não, era melhor ficarmos afastadas. Pois é, a pandemia. E conversámos e recordámos e rimos...
Sim, claro, ia procurar as tais fotografias, mas quase de certeza que não as tinha.  Precisava do meu número de telefone. Tomou nota num livro de palavras cruzadas que foi buscar dentro de casa.
- É o meu vício. Levanto-me muito cedo para  cuidar do jardim pela fresca. À tarde, passo o tempo a fazer palavras cruzadas.
- Parece que faz muito bem à mente. E o seu jardim é um pequeno paraíso.
- Gosto de o estimar em memória da minha mãe. Foi ela que mo deu e sei que gostava dele assim. Às vezes, as pernas não me ajudam muito, mas vou fazendo o que posso.

Não me ligou, por isso não devia ter as tais fotografias.
Mesmo assim, valeu a pena a visita e ter estado um bocadinho à sombra de árvores antigas.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Convite à escrita

 O Regulamento completo pode ser consultado em
www.lugardapalavra.pt

"MIMOS DE SETEMBRO
Antologia Poética 2020

A Mimos e Livros continua a celebrar a Poesia e quer comemorá-la consigo!
Vamos publicar nova Antologia Poética: MIMOS DE SETEMBRO.
Participe!

Regulamento

1. O prazo de inscrição para participação na antologia MIMOS DE SETEMBRO e envio de textos decorre até 17 de agosto de 2020.

2. Os textos devem ser enviados em suporte informático (tipo word) e remetidos para geral@mimoselivros.pt

3. Serão admitidos textos do género lírico (poemas e prosa poética).

4. Cada autor poderá participar apenas com um texto, que pode ocupar, no formato de poesia tradicional, até 30 linhas de verso (incluindo espaços de transição de estrofe e eventuais versos demasiadamente longos) ou, na prosa poética, um máximo de 1400 caracteres (espaços incluídos).

5. A ordem de publicação obedecerá a um critério a definir, posteriormente, pela organização.

6. Os autores podem utilizar pseudónimo, embora sejam obrigados a identificar-se e o seu nome ser incluído na breve biografia a constar do livro.

7. Os autores devem enviar uma curta nota biográfica, que será publicada, com um máximo de 500 caracteres, incluindo espaços. No caso de exceder o limite fixado, a organização reserva-se o direito de proceder às alterações que achar convenientes.

8. O tema dos textos é livre.

(...) "

terça-feira, 14 de julho de 2020

Mercedes Sosa - "Todo Cambia"

Obrigada, Vítor, por me teres lembrado, no teu comentário do passado dia 9,
esta música de que também gosto muito e que tinhas, recentemente, postado no teu blogue.

http://carruagem23.blogspot.com/2012/06/tudo-muda.html

Hoje, como em qualquer dia, o tema vem a propósito, por isso também o convoco.
A versão que aqui vemos é mais antiga, a tua é mais recente.
Ambas maravilhosas, na minha opinião,
na voz, também maravilhosa, de Mercedes Sosa.

Mercedes Sosa - "Canción de las simples cosas"

A primeira viagem


Hoje, este blogue - Mariana - faz anos.
Daí ter-lhe preparado uma roupa nova.
"O Vouguinha"  foi o primeiro texto que publiquei, aqui, no dia 14 de julho de 2011.
Dias antes, pelo meu aniversário, as minhas filhas perguntaram-me
o que queria como presente.
Eu disse-lhes: 'gostava que me ajudassem a criar um blogue'.
E assim abri (com algum receio, mas carinhoso apoio inicial)
esta janela que, despretensiosamente, me ajuda a olhar
com mais atenção para dentro e para fora
e a gostar muito destes momentos de partilha.
Passados estes nove anos, quero dizer:
Obrigada, obrigada a todos
que me inspiram e visitam estas páginas.
O mundo sem este blogue seria, de certeza, igual;
mas eu, não.


A primeira foto - tirada do Vouguinha


 O Vouguinha
Hoje, fui, com duas amigas, fazer uma pequena viagem na linha do Vouga: o vouguinha, como algumas pessoas lhe chamam.
Saímos de Espinho por volta das nove e meia da manhã e, passadas umas duas horas, estávamos em Sernada do Vouga.
Ao longo da viagem, fomos vendo campos verdes de milho, algumas casas rente à linha, em avançado estado de degradação, longa extensão de mato e árvores a tapar o serpenteado do percurso…
Quem motivou também para esse olhar, na carruagem quase vazia, foi a D. Eduarda, uma funcionária simpática e expedita que, nos apeadeiros, saía do comboio para abrir e fechar as cancelas. Para além disso, sorria, falava com sensato à vontade, comunicando bem com os passageiros. A pedido, marcou três almoços, por telefone, no café da estação. Não sem antes informar que o prato do dia era arroz de legumes e costeleta grelhada.
Em Sernada, havia calor, linhas antigas ainda ativas, um velho comboio no centro aberto da estação, uma horta bem regadinha e verde, buganvílias frondosas, um rio com corrente fraca e interrompida, secas ervas daninhas, feijões a secar ao lado das vagens vazias, belos e antigos pinheiros mansos, algumas casas com silêncio de riqueza antiga…
E uma expressiva senhora magrinha no café da estação a dizer que espera que a linha não acabe.
Depois do almoço, deixámos o local, entrando num velho comboio onde se lê que presta serviço há 100 anos. E apetece (-me) dizer: se ainda há tantas flores frescas, muitas mais deverão florir.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Ler e partilhar


Tenho uma amiga que tem o bom hábito de partilhar algumas leituras.
Como é uma excelente leitora. dá assim a conhecer obras e autores muito bons,
mas, pelo menos para mim, muitas vezes desconhecidos.
Desta vez, partilhou o excerto seguinte.
Para além do prazer do texto, o autor - ou narrador - levanta problemas atuais e pertinentes.
Realço o que é abordado nas últimas linhas.
Obrigada, Idalina

“Tinha apenas onze ou doze anos quando o meu tio me ensinou a manejar a espingarda: nesse tempo, as crianças amadureciam cedo; com nove ou dez anos já ajudávamos no campo, nas obras, nas oficinas. Ao primeiro tiro, o coice da espingarda deixou-me uma nódoa negra no ombro e quase me atirou ao chão. Como seria de esperar, errei o alvo, e voltei-me para o meu tio, mortificado de vergonha. Esperava que zombasse de mim, mas não, não se riu, como eu temia; passou-me a mão pela cabeça, deu-me um piparote e disse-me: acabas de ganhar o poder de dar morte ao que está vivo, um poder que é na verdade uma desgraça, porque o verdadeiro poder – e esse ninguém o tem, nem mesmo Deus, porque aquela história de Lázaro é uma patranha – é devolver a vida ao que está morto. Tirar uma vida é fácil, qualquer um o pode fazer. Fazem-no todos os dias por esse mundo fora. Abre o jornal e logo vês. Até tu podes tirar uma vida, desde que melhores a pontaria, claro está (aqui, sim, sorriu, galhofeiro, semicerrando os olhos cinzentos e vivos que o bom humor rodeava de uma teia de aranha de pequeninas rugas). O homem, que é capaz de construir enormes edifícios, de fazer desaparecer montanhas inteiras, de abrir canais e erguer pontes sobre o mar, não consegue fazer com que uma criança morta volte a abrir as pálpebras. Por vezes, o maior e mais pesado é também o mais fácil de mover. Pedregulhos enormes na traseira de um camião, vagões carregados de metais pesados. Mas aquilo que guardas dentro de ti, os teus pensamentos e desejos, que aparentemente nada pesam, não há Hércules que consiga carregá-los aos ombros para outro lado. Não há camião que os transporte. Conseguir o amor de alguém que te despreza, ou a quem és indiferente, é uma tarefa bastante mais difícil do que atirá-lo ao chão com um murro. Os homens batem por impotência. Julgam conseguir por meio da força aquilo que não alcançam por meio da ternura e da inteligência. “

Rafael Chirbes, Entre Margens, 2015.