sábado, 31 de dezembro de 2022

Uma pinóquia simpática e as minhas rabanadas

 

Hoje à noite vamos ser menos à mesa. Mesmo assim, há sempre coisas que faltam. Neste caso, vi que não tinha alhos. Fui ao cemitério pôr umas orquídeas-sapatinho na minha mãe porque ela cuidou sempre carinhosamente delas enquanto pôde. Como a nossa vida é feita de contrastes, fui depois comprar os alhos que me faltavam para o jantar.

Logo no primeiro corredor do supermercado, vi uma rapariga, agora mulher, que havia sido minha aluna há muitos anos. Reconheci-a de imediato e ainda me recordava do seu nome: Elsa. Ela também me reconheceu assim que me viu e disse aquilo que muitas vezes se diz quando se quer ser simpático: - Está na mesma! Claro que fiquei contente pelo reconhecimento, mas 'na mesma' ninguém está quando umas dezenas de anos passam por nós sem nunca se esquecerem de deixar as suas marcas, do cabelo aos pés.

Esta tarde, fiz rabanadas e, olhando para o prato com elas já com açúcar e canela, tive a ilusão de pensar que o melhor era só comer uma já que estou 'na mesma', passados mais de vinte anos e o melhor será manter-me assim. Mas logo ouvi a voz fininha da razão que só eu ouvia: - Olha que sempre andaste despenteada e hoje estava muito vento. A Elsa foi uma pinóquia simpática, não te esqueças nem te iludas. E o melhor é mesmo não comeres muitas rabanadas!



 FELIZ ANO NOVO!


sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Pinóquio

 

Quando vamos a Lisboa, vamos às vezes jantar ao Pinóquio. Estando nós um dia desta semana na fila, chega um sujeito, com muitos predicados na vestimenta e nas palavras, vai ao início da fila, chama o funcionário, cumprimenta-o, saúda-o, põe-lhe a mão no braço e pede-lhe uma mesa para si e para o seu grupo. Estão com pressa, pede desculpa e compreensão. Já tinha dito no dia anterior que viriam. Recorda-se, amigo? Lembra-se?

O funcionário, com todo o traquejo e tranquilo savoir-faire, diz-lhe que sim, com certeza, arranja mesa, mas têm de esperar na fila porque não fazem reservas e há pessoas que chegaram primeiro. O sujeito, deixando cair alguns dos predicados, voltou ao grupo que já estava na fila.

Quem viu e ouviu olhou o sujeito como pinóquio ou raposa e juntou-o a outras histórias que cada um vai conhecendo.

 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

A melhor hora

 

Subimos até ao castelo de S. Jorge, em Lisboa.

Não é fácil a subida. O piso íngreme é de pedras rugosas. Seis da tarde. Mais uma hora e fecha o portão de acesso.

Chegam duas turistas junto do guarda da entrada. Ofegantes da subida, mas não menos entusiasmadas, perguntam em alta voz:

Qual a hora melhor para a visita?

De manhã, entre as 9 e as 11, responde ele com um sorriso moldado por  incontáveis perguntas e respostas semelhantes.

Elas desistem da visita, deixando-a para amanhã, embora ainda pudessem fazê-la hoje.

Já depois de o bilhete ter cumprido a sua função, vamos até ao miradouro donde se vê muita cidade, neste caso quase sem sol que se veja.

Por cima de nós, Lua e Júpiter em brilho palpitante. Ao longe, bem mais rasante, a linha da luz intermitente de um avião.

Sento-me num banco de pedra e digo-lhes que continuem a subida até à parte mais alta do castelo e que eu prefiro ficar por ali.

Fico a olhar quem chega, quem tira fotos, quem posa, quem se alonga na visita, quem se afasta logo depois de um olhar breve...

O calor luminoso do dia vai-se apagando, a noite chega arrefecida, mas as luzes da cidade lá ao fundo mantêm-na ao alcance do nosso olhar, se bem que distante.

Ainda bem que não esperámos pela 'melhor hora'. Mais difícil de encontrar do que subir ao castelo de S. Jorge quando as pernas pedem descanso.

 


 

sábado, 24 de dezembro de 2022

Feliz Natal para todos!

 

Ontem à noite, a minha neta começou a preparar a lareira para a chegada do Pai Natal. Pôs um banquinho para ele poder descansar um pouco, porque a noite é de azáfama. Hoje, antes de se deitar, deixará, como de costume, um copo com leite e um pratinho com biscoitos.

Tirou também o Menino Jesus do presépio, porque ainda não tinha nascido, tal como tinha visto na Igreja dos Capuchinhos, aonde fomos ontem. 

Amanhã, o Menino Jesus voltará para as suas palhinhas, junto dos pais e dos animais que também lhe dão calor.

FELIZ NATAL para todos - para quem acredita e para quem não acredita no Menino Jesus e no Pai Natal.

 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Por isso (lhe) escrevo

Quando eu chegava a casa da minha mãe e não a via, chamava-a e a sua forma de dizer onde estava era: Ai!

Muitas vezes, eu pensava que, um dia, se a vida seguisse o seu rumo normal, eu iria sentir a falta da sua voz e daquele Ai que era a sua maneira de dizer Estou aqui. E esse dia chegou, definitivo, frio e rápido.

Sempre vi a minha mãe a deitar-se muito cedo e a levantar-se também muito cedo. Pela fresca, como sempre dizia, sobretudo no verão, quando as plantas e as flores pediam água. E explicava, com zelo, como regar as plantas para não haver desperdício de água nem continuação da sede. Tratar das plantas fazia parte da rotina de que gostava bem mais do que do tempo de férias, em que os filhos estavam mais longe e o ritmo do dia a dia se alterava.

As janelas da casa há dias que estão fechadas, os gatos parecem seres mais solitários, o canário ouve-se agora na minha cozinha, as galinhas não têm ovos nem couves frescas como foi costume na capoeira cujo destino é ficar vazia...

A velha máquina de costura continua com as agulhas, os carrinhos de linhas, os dedais, as tesouras, etc, nas gavetas, como sempre as conheci.

À volta do limoeiro e da laranjeira haverá mais fruta no chão. As ervas daninhas já começam a invadir os vasos. 

Os versos de louvor divino ou os aprendidos de cor na escola primária e que eu passei no computador estão numa pastinha, à espera de lhes encontrar um destino mais aberto. O resto da casa mantém-se intacta. No entanto, está vazia: falta a sua essência, falta a minha mãe. 

Por isso escrevo. Dizem que saio a si, mãe, por gostar de palavras e de versos. Amanhã, véspera de Natal, alguns de nós estaremos juntos. Falaremos de si à mesa.  E pode ser até através da aletria que, por mais que se tente, fica sempre aquém da sua e de que toda a gente gostava. 

Mãe, os seus presépios continuam nos mesmos lugares e o Menino Jesus continua aconchegado no paninho de linho e de renda.

Mãe, é Natal. Vamos encontrá-la nas estrelas.


 

Obrigada, querida prima R.

 

Recebi ontem esta mensagem. Vi nela um bom retrato da minha mãe. Estive para cortar o que está para além desse retrato. Deixei ficar, porém. Obrigada, querida prima R.

 

"Olá, Dolores. Queria enviar-te um abraço especial no dia de hoje. A "tia Rosinha", para mim, sempre foi uma pessoa muito especial. Tinha um lado quase severo, pelas crenças e religiosidade, e a postura sempre reta, elegante. E depois tinha os olhos e a voz doces. Muito doces. Falava baixinho, era discreta e querida. Gostava daquele seu universo - as flores no seu jardim, lembro-me dela a cuidar de rosas; e de tudo o que era da casa e delicado - foi ela que me ensinou a fazer renda, sabias? E depois havia a sabedoria de saber estar ao lado do marido durante muitas décadas, com todas as diferenças que existiam entre os dois. Ambos, juntos, serão sempre uma memória muito bonita. Acho que herdaste aquela voz doce. E certamente muitas outras coisas boas desse privilégio de ser filha de duas pessoas tão 'extraordinárias', tão singulares. Desejo-te um Feliz Natal..."

 

Uma história do João Ratão na Carruagem 23

 

 Vítor Oliveira, diretor do Agrupamento de Escolas Dr Manuel Laranjeira, em Espinho, tinha-nos convidado, a nós, autoras de Uma história de João Ratão, para irmos a três escolas do primeiro ciclo apresentar o nosso livro. Ficámos muito contentes, é claro, pela boa experiência que é falar com crianças e também sobre uma história que (re)escrevemos. 

A morte da minha mãe impediu-me de estar presente, mas sei, pela Maria Clara Miguel (Isaura Afonseca de seu nome), que o dia teve felizes Era uma vez...

Vi agora que a história e também a história do dia entraram, felizes, na Carruagem 23. Muito obrigada, Vítor.

Partilho o link do blogue:

 https://carruagem23.blogspot.com/2022/12/foi-vez-do-joao-ratao.html

e um cheirinho do post com a reportagem:

 

 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Dezembro: mês de renascimento e também do seu contrário

 

A cerimónia foi às 9.15 de hoje. Às 10 e às 11 haveria mais dois funerais.

Ouvia-se a chuva cair fora da igreja. As pessoas davam os sentimentos, louvavam-lhe as virtudes e a vida de bons 96 anos. E as flores, como gostava delas. E como havia tantas.  Muitas rosas, como o seu nome. Rosas cor-de-rosa, rosas brancas... em raminhos que lhe cobriam uma parte do corpo. As mãos geladas e brancas, com um dos muitos terços que lhe ofereciam, pousadas no fato preto de que gostava tanto. Sempre bonito, dizia. Por isso, o escovava e punha a arejar antes de ser guardado. Na cabeça, o habitual turbante. Mesmo que houvesse vento, não havia despenteio. Sempre tinha gostado de se vestir a apresentar bem.

Teria gostava de ver as flores, de saber que veio família, que vieram amigos, que vieram vizinhos. Só ficaria com pena de não poder perguntar se queriam um cafezinho e um biscoito. Talvez tivessem falado demasiado uns com os outros. No espaço sagrado, tem de haver silêncio e recato. Podiam ter rezado o terço. Faltou a D. Celeste que tomou a iniciativa no dia anterior, embora houvesse ainda pouca gente no velório. Mas, pensando bem, compreendia a vozearia porque algumas pessoas só se encontram em funerais. Claro que gostaria de ver filhos e netos a comungar de mais religiosidade. E não foi por não lhes ter falado. E não foi por não lhes ter pedido. E não foi por não lhes ter repetido que Deus faz falta e que, por isso, O procurava sempre. Por ela e por eles.

Terminada a missa, as pessoas foram em cortejo para o cemitério. Antes dos degraus até à última morada, fez-se uma paragem e foi tirada a tampa de madeira. Para a despedida. A chuva caía miúda sem ruído. Como a emoção que se quer conter mas não se esconde.

Abeirei-me dela, afaguei-lhe a cabeça e disse-lhe como sempre lhe dizia: Minha mãe! E acrescentei: Descanse em paz!


sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Mais espelhos para quê?

 

Domingo passado, fui a uma padaria perto de casa. Quando lá cheguei, logo vi uma amiga de infância que não via há muito tempo. A primeira coisa que me disse foi: estás tão parecida com a tua mãe. 
No dia seguinte, fui a uma farmácia também perto de minha casa. Gosto de lá ir porque nunca há muita gente e assim não tenho que esperar muito. Entrei e a única cliente que lá estava mora perto de mim, embora não nos encontremos com frequência. Depois dos olás e do tudo bem que veio para ficar, disse-me ela: ainda não tinhas entrado e vi logo que eras tu, estás tão parecida com a tua mãe. 
Se duas pessoas - nem sei se se conhecem - em dois dias seguidos dizem a mesma coisa, é porque é verdade.  Nem foi preciso ver-me ao espelho.
Mais espelhos para quê? 


terça-feira, 13 de dezembro de 2022

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Foi você que perguntou: 'O que hei de fazer para hoje à noite?'

 

Já ouvi esta pergunta inúmeras vezes, e devo tê-la feito outras tantas, saindo aquela quase sempre da boca das mulheres. Ia dizer  'é claro', com clara ironia. Opto, porém, por outra palavra: Ainda!

Lembrei-me disto porque criei(-me com) o hábito de pensar, e fazer na maior parte das vezes, as refeições diárias, embora os meus cozinhados sejam habitualmente simples e não demorados.

Gosto até de saber logo de manhã o que vou fazer ao almoço, ao jantar e, às vezes, no dia seguinte. Somos quatro cá em casa e, assim, a mente fica-me mais livre para outras coisas. Reconhecendo, contudo, que há hábitos plantados e que nós deixamos enraizar.

E, a propósito, vem-me sempre à memória uma peripécia já com algumas décadas. Um tio meu, emigrante na Alemanha, veio a Portugal com a companheira, alemã, para ela conhecer a família e o país. No final da estadia, ela mostrou-se estupefacta com o tempo que as mulheres passavam diariamente na cozinha para confecionarem todas as refeições para a família.

A situação, com o evoluir dos tempos, foi-se alterando em muitos casos porque as mulheres trabalham tanto ou mais do que os homens e estes, embora devagar e a custo, vão saindo de um trono único onde foram colocados e onde lhes era cómodo permanecer.

Foi você, homem com família, que perguntou: 'O que hei de fazer para hoje à noite'? Como a alimentação não escolhe género, é caso para dizer: A sua pergunta é 'tão natural como a sua sede'.

 

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

'Calendário do Advento'

 

Este é o título do programa de Anabela Mota Ribeiro, que passa diariamente às 20 h no canal 3.

Há sempre um(a) entrevistado(s) que fala do Natal e de memórias de natais já passados. Acho que vale a pena ver porque não é ruidoso e há convidados que trazem/dizem coisas que apetece ver e ouvir.

Hoje, a essa hora, a grande maioria dos portugueses estará focada noutro calendário: o da seleção.


domingo, 4 de dezembro de 2022

'Será que já morri?'

 

Hoje, domingo, fui bem cedo para casa da minha mãe. O sol ainda não tinha mostrado nem um bocadinho da sua luz. Como a minha mãe ainda dormia quando cheguei, comecei a arrumar um móvel do quarto da costura. Gosto do nome desta divisão, com a velhinha Singer junto à janela, sacos com lãs, com amostras de pontos e rendas, com bocados de tecido atados por um fio...

Já tinha visto que as gavetas estavam atulhadas de pequenos jornais religiosos, pagelas, santinhos, postais, cartas, versos manuscritos de louvor divino, folhas da paróquia, vidas de santos, fotografias, etc. Impossível não parar nas imagens com os meus pais em tardes de passeio com amigos e em que a vida parecia durar sempre, apesar das doenças todas que o meu pai foi tendo e vencendo ao longo da vida.

Fui separando, organizando e não resisti a pôr de lado pequenos jornais, folhas de avisos paroquiais, etc. Meti-os num saco para reciclar. Só esperava era que a minha mãe não me perguntasse por eles. Com certeza que não, porque a maior parte tinha perdido a validade.

Estava contente por ver as gavetas mais arrumadas e com mais espaço, o que me agrada cada vez mais. Nisto, a minha mãe chamou por mim. Aproximei-me e cheguei as minhas mãos às dela, que estavam muito quentinhas. As minhas, porém, estavam bem frias. Talvez por ela estar a acordar e não ter os sentidos bem despertos nem claros, disse-me

- Que mãos frias, será que já morri?

Sorri e disse-lhe que as mãos frias eram as minhas e não as dela. E que ambas estávamos vivas, felizmente. E lembrei-me das fotografias com os meus pais muito mais novos e que também teriam sorrido, nessa altura, perante uma questão semelhante.

 

Tal como nós, os dias não são sempre iguais!

 

Em novembro, fui a Londres por duas semanas. A meio da tarde, atravessava quase sempre um parque e resolvi tirar algumas fotos à mesma hora, colocando-me, mais ou menos no mesmo ponto. E dizia para mim própria: Tal como nós, os dias não são sempre iguais!

 

 






sábado, 3 de dezembro de 2022

Página do diário de uma menina que não gostava do Natal

 

Como acontece há mais de dez anos, saiu a coletânea 

de textos de Natal 2022

da Editora Lugar da Palavra.

Partilho o meu texto que foi publicado. Em modo adolescente, falo de algumas pequenas coisas

que considero relevantes, no Natal e não só. 

Tenho pena é de (ainda) não as pôr em prática. 

 


Querido diário, para mim, não há estação mais feliz do que o verão. Passar muito tempo com os meus primos é o melhor das férias. As recordações que me ficam desses dias grandes são como peças bonitas de coleção, sei lá, como os bules da minha avó. Ela fala dos seus bules com tanto carinho e alegria que, quando gosto muito de alguma coisa, lembro-me logo deles. Ela diz que gosta dos bules porque lhe contam histórias. Durante muito tempo não entendi o que queria dizer, e agora percebo quando penso nos dias alegres das férias grandes.

Mas não gosto nada do fim de agosto, quando os adultos começam a falar do inverno. É como se as corridas de bicicleta, os gelados a escorrer nas mãos, as tardes na praia acabassem de repente e começassem logo outras coisas sem piada nenhuma, como levantar-me cedo, ter de tomar o pequeno almoço à pressa, ver os meus pais sem paciência...

 E acho esquisito os adultos começarem tão cedo a falar dos comeres do Natal. Este ano, os meus primos e eu ouvimos mais uma vez:

- Vamos no bacalhau? Ou compramos polvo? Ou baralhamos o esquema e fazemos francesinhas?

- Cá para mim, não há nada melhor do que batatas cozidas com bacalhau, penca e grelos. Tudo a fumegar nas travessas antigas.

E por aí fora.

Até das sobremesas já se fala:

- E se este ano o pudim fosse à abade de Priscos?

- A aletria e as rabanadas é que não dispenso.

 Não há pachorra.

Como os meus pais e os meus tios passam tanto tempo a falar do que se vai comer no Natal, a minha prima mais velha até diz que mais parece a festa da comida. E nos aniversários é a mesma coisa. Podiam antes pensar em atividades diferentes e fixes para todos. Às vezes, damos sugestões, mas ninguém as ouve.

Como posso gostar do Natal, querido diário? Para mais, já sei que vou ver a minha mãe stressada porque não teve tempo de terminar trabalhos urgentes por causa de tudo que teve de fazer. E se se lembra de repente de uma coisa importante de que se esqueceu, lamenta-se, fica mal disposta e em casa faz-se intervalo do espírito natalício.

Ao longo do ano, os meus pais queixam-se da falta de dinheiro, dizem que temos de poupar cada vez mais, que não aguentam a inflação, criticam quem gasta mais do que tem, mas só porque o calendário diz que é Natal, até fazem lista de presentes e de um montão de coisas a mais do supermercado. E que dinheirão é preciso. E que desperdício de coisas. E que poluição às vezes. Como se o planeta aguentasse tudo.

Aposto que, quando passar a febre do Natal, vão ficar mais uma vez chateados ao repararem no dinheiro que gastaram a mais e que faz muita falta.

Quando eu era mais pequena, para se justificarem, os meus pais vinham com aquela de que os presentes eram oferecidos pelo Pai Natal. E era tão bom acreditar nisso, querido diário. Eu sei que também era por amor que me davam os presentes, fazendo de conta que era o Pai Natal, mas o amor não é só dar coisas que se embrulham em papel bonito.

 Uma vez, pedi ao Pai Natal o que já tinha pedido ao meu padrinho, em resposta a uma carta que me mandou do Brasil, quando fiz a comunhão solene: gostava de um relógio ou de uns chinelos (ainda estou para perceber este meu pedido) ou de uma boneca. O meu padrinho nunca mais me respondeu. Se não queria dar, por que me perguntou o que eu queria? Às vezes, os adultos nem ouvem nem respondem.

Mas também o Pai Natal não leu o meu pedido ou então esqueceu-se. Acho que foi a partir daí que comecei a desconfiar que ele só existia nas histórias cheias de neve e de ternura. O resto era imaginação e música de Natal.

Nesse tempo, as cartas que eu lhe escrevia eram mesmo bonitas, em letra redondinha e com desenhos a cores alegres para lhe dar força e não desistir da longa viagem. A letra redondinha era para que lesse bem os pedidos e desejos, porque o Pai Natal, como diz a minha avó, já não vai para novo e deve-lhe falhar a vista.

Agora, que esse tempo de magia e ilusão infantil já abrandou, apetece-me dizer que preferia hibernar no Natal, mas ninguém me levaria a sério e diriam logo que são esquisitices de adolescente, o que me ia deixar triste ou furiosa. Ou então que tenho a mania de que posso mudar o mundo, mas que para isso era preciso que todos fizessem a mesma coisa. Eu acho que assim é que o mundo não muda se estivermos à espera que sejam os outros a fazer e se repetirmos sempre as mesmas coisas só porque é tradição.

 Uma vez, eu disse que se cada um fizesse todos os dias uma coisa boa pelo ambiente e pela humanidade - nem que fosse pequenina - já valia a pena e que isso podia ser uma sugestão útil para o Natal. Acho que ninguém ouviu, a não ser a minha avó. Sorriu-me e atirou-me um beijinho. Gosto muito da minha avó. Para ela, os netos são o mais importante que há no mundo e arranja sempre tempo e paciência para nós.

Nunca lhe perguntei se gosta do Natal, mas em breve vou querer saber. Não sei o que me vai responder; mas sei que vai olhar para mim com doçura, que me vai ouvir e que não se vai rir de mim nem me vai criticar.

Eu acho até que, a partir daí, vou passar a gostar mais do Natal.