sexta-feira, 3 de julho de 2026

Afinal há inferno?

 

Quando eu era pequena, assustavam-nos com o inferno. Dizes asneiras, vais para o inferno; não obedeces, vais para o inferno…

Nos últimos anos, a mentalidade mudou e chegou-se à conclusão de que não havia inferno. Que alívio!

Mas, afinal, há! Muita gente o sente por estes dias: quem vive ou trabalha na rua ou ao sol, quem vive em casas pequenas e quentes, quem vive só e quase não vê ninguém, quem está a ser atingido por incêndios…

Tudo isto é inferno!

E fomos nós, humanidade, que fomos deitando achas para esta fogueira que cada vez controlamos menos: lixos atirados à toa, construção de casas em lugares errados, agentes poluidores à solta e tanta coisa mais que ‘vemos, ouvimos e lemos’!

Não nos falte água - que também vai escasseando - para nos hidratarmos e apagarmos os fogos que fomos ateando - uns bem mais do que outros. E que agora nos incendeiam o corpo e a alma.

Desculpe, mãe, muitas vezes lhe disse que não havia inferno, mas afinal há. É muito diferente do de antigamente, mas não deixa de ser inferno.


quinta-feira, 2 de julho de 2026

Calor, solidão …


Os dias tórridos que estamos a viver não são novidade para ninguém e dizer que está calor ainda aquece mais o ambiente, às vezes sufocante.

E, na noite passada, para além do calor, houve vento, muito vento. Perto de minha casa, há estufas e eu estava sempre a ver quando voava, com estrondo, alguma cobertura de zinco, como já aconteceu. 

Quase desfeito ficou,  porém, um guarda-sol que voou da casa vizinha. Ainda bem que a minha cadela não andava, naquele momento, em passeio de busca noturna. 

Pela hora do almoço, dois funcionários do Serviço do Ambiente tocaram-me à porta, para recolha de verdes. Enquanto faziam o trabalho, pediram-me água. A garrafa que tinham na carrinha estava vazia e torta pela exposição ao calor.

E isto são apenas uns ínfimos pontinhos de uma geografia afogueada e quase toda pintada a vermelho.

Bem mais angustiante será viver em casas pequenas e quentíssimas. E sem ninguém para falar, a quem se queixar, a quem dirigir um gesto e receber um abraço. Para abrir ou fechar uma janela para que o sol não atordoe mais, para que o ar seja mais suportável e alivie a solidão. Curiosamente, o tema da solidão foi abordado hoje no programa Sociedade Civil do canal 2. 

Ao longo dos 60 minutos, ficámos a conhecer muito trabalho solidário no sentido de ajudar pessoas a interagirem mais, irem ao encontro de quem vive só, não pode sair e precisa de comunicar para que a vida faça sentido. Cinco pessoas de cinco instituições - todas elas mulheres e ainda jovens - expuseram projetos de amor aos outros e de ligação afetiva às comunidades.

Houve calor humano, bem diferente do calor que nos está a assolar. Este era dispensável, o outro  - o calor humano - anda muito faltoso mas é cada vez mais urgente e necessário. 


sábado, 27 de junho de 2026

Uma das 'minhas' músicas!

 


Futebol

 

Futebol se joga no estádio?

Futebol se joga na praia,

futebol se joga na rua,

futebol se joga na alma.

A bola é a mesma: forma sacra

para craques e pernas de pau.

Mesma a volúpia de chutar

na delirante copa-mundo

ou no árido espaço do morro.

São voos de estátuas súbitas,

desenhos feéricos, bailados

de pés e troncos entrançados.

Instantes lúdicos: flutua

o jogador, gravado no ar

— afinal, o corpo triunfante

da triste lei da gravidade.

 

Carlos Drummond de Andrade, In Poesia errante

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Hoje


Ainda estão quentes as brasas

Da noite de S. João

Não nos falte a alegria 

Para lançar o balão!


segunda-feira, 22 de junho de 2026

É São João!


Ó meu rico São João

Vê se desces cá à Terra

Há tanta desunião

E é tão mortífera a guerra!


E o desconcerto do mundo

Vai crescendo em cada dia

Uns não saem da tristeza

Outros só veem alegria!


E não sei se também sentes

Os gritos de sofrimento

Ouvidos dentro de casa

Em vez de paz e alento!


Não te peço, S. João,

Que venhas lutar por nós

Cada um pode fazer muito

Mas sentimo-nos tão sós!


sexta-feira, 19 de junho de 2026

Com a bebida no balcão

 

Já se conheciam há muitos anos, tinham convivido durante muito tempo, mas raramente se encontravam. Raramente falavam. Raramente trocavam mensagens. Quase só pelo Natal e pelos anos dele. Dela, não, porque ele não sabia as datas dos aniversários e nunca perguntava. Era muito discreto. Sempre assim tinha sido.

Um dia, cruzaram-se, curiosamente, junto a um cruzamento. Ficaram felizes pelo encontro. Ela mais do que ele. Pelo menos parecia. E deram um abraço. Bastante rápido porque estavam na rua e, como eu já disse, ele era discreto. E ela também, embora fosse menos. Cada um pensava que tinha coisas a dizer um ao outro. Ficaram, porém, pelas palavras triviais de quem já não se vê há muito tempo: tudo bem, como vais, estás bem, como tens passado…

Um deles, já não sei bem qual, foi dizendo que a solidão ia pesando. E também já não sei se foi ele ou ela que teve  vontade de dar a mão - acho que foi ela -, sentar-se num banco e ficar a conversar, a conversar... Sem pressas e sem agruras.

Mas não havia banco e ele estava com pressa. Ela ainda teve tempo de dizer que era o seu aniversário. Ele deu-lhe os parabéns e desejou-lhe um dia feliz. E que em breve se encontrariam com mais tempo. E despediu-se.

Se fosse um filme, veríamos uma mulher parada, com ar hesitante, olhando um cruzamento e um homem a afastar-se.

Como se saísse de momentos de letargia, ela respirou fundo e seguiu até ao café mais próximo. Podia ser que encontrasse alguém conhecido com quem pudesse conversar um pouco. Nem que ficassem de pé, com a bebida descansando no balcão!


quarta-feira, 10 de junho de 2026

Impossível não me lembrar de Elza


Há uns anos, tive uma aluna - a Elza - que leu este soneto de Camões numa aula. Enquanto ela o dizia, fez-se um silêncio profundo. É que o tom de voz, a postura, o sentimento ... tudo fazia brilhar ainda mais a humana beleza triste do poema.

Não sei onde estará Elza a viver e a trabalhar. Talvez ainda saiba o soneto de cor. De uma coisa tenho quase a certeza: quem a ouviu ficou a gostar ainda mais de Luís de Camões.


Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a Fortuna sobejaram,
Que para mim bastava Amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que já as frequências suas me ensinaram
A desejos deixar de ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa a que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De Amor não vi senão breves enganos.
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!


Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

O nome da rua


Vinha de longe e não conhecia aquela rua. Procurou-a no mapa, mas não a encontrou. Resolveu perguntar a um homem que passava passeando o cão. Não, não sabia o nome da rua, embora lá passasse muitas vezes. Também não tinha tempo para procurar alguma placa ou perguntar a alguém, porque o cão puxava a trela com toda a força. Se a largasse, teria de correr muito e já não tinha pernas para isso.

Mais adiante, perguntou a uma mulher que estava a colher flores do seu jardim. A mulher disse que não se lembrava porque ultimamente esquecia-se de tudo.

O homem continuou o seu caminho e avistou um café com um nome curioso: Café Oásis. Entrou, pediu um café e perguntou o nome da rua ao rapaz que o atendeu. Com sotaque brasileiro, ele respondeu que não sabia, mas que iria perguntar à patroa. E foi, mas ela estava a conversar com outra mulher - do outro lado do balcão - e não gostava de ser interrompida.

Como o café era pequeno e os clientes estavam todos atendidos, o empregado deixou-se ficar à espera de fazer a pergunta e, mesmo sem querer, ia ouvindo a conversa entre as duas mulheres. Uma delas dizia e repetia: Esta é a rua das mulheres sós. 

E logo foi dizer ao homem desconhecido que aquela rua era a rua das mulheres sós. O desconhecido acreditou porque se habituara a ver o mundo cada vez mais estranho. E saiu do café a pensar no nome da rua. 

Muito próxima do café, viu uma mulher a falar ao telefone. As palavras saíam-lhe entre sorrisos. Afastando-se, o homem olhou para trás; a mulher, sorridente, acenou-lhe e entrou no café. O desconhecido acenou também, pensando que era bom que o nome da rua estivesse errado.

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Crianças: hoje é o seu Dia!

 

Retirei o excerto, em baixo, do ‘Expresso Curto’ de hoje.

 O número de crianças em Portugal vai diminuindo. Julgo que quase ninguém gostaria de voltar aos velhos tempos em que muitas famílias - a grande parte muito pobre - tinham muitos filhos; os mais novos eram criados pela irmãos mais velhos que não podiam fazer escolhas de vida por falta de tempo e de dinheiro.

Os dados mostram, então, que, atualmente, vivemos o oposto: muito poucas crianças e famílias pequenas. Será que a situação vai mudar? Tenhamos esperança. 

E o tempo que as crianças passam com a família também é reduzido, porque muitas horas são passadas na escola. 

Não estaremos também a aumentar o tempo de solidão de toda a família?


“Crianças Hoje é Dia Mundial da Criança. Um retrato da infância em Portugal mostra que há apenas uma criança para cada dez adultos no país. Portugal sofreu a segunda maior queda da população infantil na União Europeia, nos últimos 50 anos e as crianças em Portugal passam cada vez mais tempo na escola e vivem com famílias cada vez menores.”


domingo, 24 de maio de 2026

No calor sufocante de antigos maios

 

Uma noite destas, acordei com trovoada. O que para muitos é fascínio, a ponto de se porem à janela, para verem o céu a riscar-se de luz, para mim é susto e stresse. Não sei se por memórias antigas também.

Impossível não me lembrar de trovoadas da minha infância em que a família se juntava numa divisão da casa. A minha mãe acendia uma vela benzida junto do raminho de oliveira igualmente benzida e rezávamos, em voz alta e em tom de novena, a oração a santa Bárbara. E eram lembrados os pecados do mundo de que a trovoada era um aviso e pelos quais devíamos pedir perdão a Deus.

Eu e os meus irmãos acompanhávamos as orações da nossa fervorosa mãe. O meu pai ia sussurrando, sem grande convicção, as ladainhas que a minha mãe iniciava. E eram muitas. E todas bem proferidas, sem qualquer atropelo de sílabas ou de palavras. 

O meu avô, ai, o meu avô, não me lembro se ele acompanhava as palavras devotas da minha mãe. O que sei é que não as sabia de cor, mas a presença dele era um alívio na sala, apenas iluminada pela vela acesa, e onde quase nem entrava ar, porque a porta estava fechada à luz dos relâmpagos. Só no final da tempestade, é que notávamos como o calor da sala se tinha tornado sufocante.

E o meu avô, aquele homenzarrão, de sorriso maroto e que tantas vezes contava as mesmas histórias e sempre com graça, sabia quando voltava a bonança. O som dos trovões ia ditando as  suas palavras: a trovoada já está mais longe. Vai passar em cinco minutos. As suas palavras acalmavam e eram as mais felizes e esperadas previsões da meteorologia do momento. 

Quando tudo serenava, abríamos a porta da sala, e também a janela. A vela já apagada mantinha-se no lugar, o raminho de oliveira e seca permanecia, sagrada, na jarrinha de vidro. 

Já libertos da trovoada, o meu irmão, o mais novo da família, ia brincar, a minha mãe e nós, as filhas, retomávamos os trabalhos domésticos, o meu pai ia para a oficina, preocupado com o trabalho. Quanto ao meu avô, resgatava uma das histórias antigas que sempre começavam assim: Uma ocasião...

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A menina que queria ser polícia!

 

Fiz parte do júri do concurso cujo cartaz mostrei no post anterior. Os concorrentes iam do primeiro ciclo ao ensino secundário e cada um já tinha sido vencedor no seu escalão e no seu agrupamento. Portanto, quem chegava à final das provas concelhias eram alunos muito bons. Uns com alguma timidez, outros com muita desenvoltura e à vontade, mas em todos se notava apoio da família e das professoras. Quando assim é, a 'obra nasce' com muito mais entusiasmo e convicção. 

Aos alunos era pedido que escolhessem um livro, que fotografassem objetos ligados à obra para serem apresentados ao público e, a partir deles, tecessem a sua argumentação. E um excerto, também à escolha de cada um, teria de ser lido. 

Muitas crianças encantaram, chovendo aplausos. Sobretudo os alunos do primeiro ciclo levaram os objetos que também fotografaram. E, antes da prova, algumas professoras ajudavam-nos a transportá-los, cheios de cor, bem desenhados e bem colados. Bonita e importante interação.

A propósito de A bicicleta que tinha bigodes, de Ondjaki, lá subiu ao palco um menino com um rádio vistoso, uma escola tipo casinha acolhedora...

Era um gosto ver os meninos e meninas com o seu livrinho na mão e a carinha muito próxima do microfone para que todas as palavras que diziam se ouvissem e se ouvissem bem.

A seguir, veio o segundo ciclo, depois o terceiro e, finalmente, o secundário. 

E a uma jovem do 12º ano, foi dito, no final da sua apresentação, que era uma belíssima contadora de histórias e que sobretudo muitas crianças gostariam  de a ouvir - pela dicção, pela expressividade, pelo amor com que contava... Ficou feliz com o elogio, disse que gostaria muito de fazer essa experiência, e que, no futuro, queria ser polícia! Foi surpreendente essa vontade expressa com um largo sorriso.

Quando ela descia do palco, surgiu-me o título para uma história: A menina que queria ser polícia!


domingo, 17 de maio de 2026

Ler para querer mais!

 


terça-feira, 5 de maio de 2026

Não é por ser meu neto!...

 

- Agora, meu amor, como acabámos o jogo, vamos contar as pecinhas. Pode ser?

- Sim, avó: uma, duas, três, quatro, cinco, sete…

- Achas que é sete? Depois do cinco é sete?

- Vou contar outra vez: cinco, seis, sete, oito, nove, dez!

- Muito bem! Esta peça foi a primeira, esta foi a segunda... Queres continuar?

- Quero, avó.

-  Terceira, quarta, quinta…

- Muito bem, meu amor. Continua.

- Avó, não sei mais. 

- Eu ajudo-te, vá lá!

- Quarta, quinta, sexta…

- Ótimo! E depois de sexta?

- Não me lembro, avó.

- Pensa bem! Quarta, quinta, sexta...

- Já sei, avó.

- Então, qual é?

- Sábado!!!!

domingo, 3 de maio de 2026

Mãe

 
A minha Mãe era Rosa



Feliz Dia da Mãe!


sexta-feira, 1 de maio de 2026

Meu querido mês de Maio!

 

Hoje, é o teu primeiro Dia e, por isso, é feriado! Levantei-me cedo, como acontece regularmente. Talvez não fosse necessário, mas, para mim, é e é bom. Assim, o dia rende mais e posso fazer as boas e preguiçosas pausas da hora do almoço e do fim de tarde. Ai que prazer sentar-me no sofá, ver as notícias, pensar, ler, crochetar, não fazer nada... 

Gosto de ti, mês de Maio. Vens, logo no teu primeiro Dia, ativo e reivindicativo para que os deveres e direitos de todos não sejam esquecidos. És festejado nas ruas, com muitas bandeiras, muitos slogans de alerta, muitas vozes que se querem fazer ouvir. Sabes, lembro-me muito bem do Primeiro Dia em que foste festejado em Portugal e em Liberdade. Ainda moram nos meus olhos as multidões em praças e ruas. A alegria e deslumbramento eram tão grandes!

Quando nasces, Maio, sobretudo nas aldeias, muitas vezes apercebes-te do perfume e das cores das maias em muitas portas e janelas. É bonito serem flores a proteger do mal, segundo a tradição. Porém, ontem não as pus, porque são difíceis de encontrar ou de apanhar. Escasseiam quando antigamente eram abundantes. E o ritual era engraçado: ir ao monte apanhar um raminho das giestas de flor amarela. Também cresciam e floriam à beira das ruas ou caminhos. Como agora são poucas, há quem as junte, criativamente, a outras flores. Como mostram estas fotos amigas que recebi.



Maio, o que nos trarás? São tantas as incertezas. São tantas as imprevisibilidades. São tantas as reviravoltas e ganâncias de quem governa o mundo que o mundo até entontece.

Quando eu era pequena, tinha medo de ti, Maio, por causa das trovoadas frequentes e previsíveis que te acompanhavam. Nesse tempo, o melhor boletim meteorológico era o meu avô. Olhava para o céu e acertava sempre. Hoje, já não seria bem assim, porque muitas tempestades chegam violentas e revolvem, de repente, os locais onde desabam. Tal como as guerras, atingem pessoas e espaços inocentes, sem dó nem piedade.

Meu querido mês de Maio, fico-me por aqui;

Vê se abrandas o sofrimento

que aumenta em cada momento.

Podemos confiar em ti?


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Manhã


Hoje está a chover!

Uma chuva macia e serena

Que me fez logo lembrar

Dias de quando eu era pequena!


Eu e a minha irmã


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Na 'minha cidade com mar ao fundo'!

 

Ontem, fui à 'minha cidade com mar ao fundo' - Espinho. Cheguei pela hora da abertura das lojas. Depois de um cafezinho,  estava na rua 19. Uma das primeiras lojas aonde entrei foi a bonita Bertrand. Eu tinha uns livros em mente e um vale ainda do Natal que queria descontar.

Entrei e parei a ver os livros mais em evidência, aqueles que à entrada estão dispostos de modo a chamar logo a atenção. Um deles era de um apresentador da tvi. E outros que devem vender bem. Muito bem. E veio-me à cabeça a frase que agora muita gente diz: 'Toda a gente escreve livros'. E, se são figuras mediáticas, os livros vendem-se. E muitos. E se as editoras têm dinheiro para a publicidade, ainda se vendem mais. Muito mais.

Se calhar, alguém diz a mesma frase quando, modestamente, publico os meus livros. Já agora, estou a trabalhar numa história para crianças que gostaria de publicar ainda este ano e que está a ser ilustrada. Só que, como tanta gente que gosta de escrever, sou desconhecida, anónima e as editoras, que aceitam publicar, têm poucos recursos e são pequenas. Só é grande o prazer de escrever, ver ilustrado e concluído um livro, feito honestamente, com amor, com criatividade, que, de uma forma ou outra, também anda por aí.  

Pois bem, os livros que eu queria comprar eram da Capicua e cuja coleção, julgo, tem o titulo 'Mão Verde'. Ao balcão, estavam duas jovens, simpáticas e educadas, que me informaram que, pelo menos, um desses livros só estava à venda online. Perguntei por outros livros de Capicua, também para crianças. Para além de ser muito talentosa e escrever muito bem, ela aborda temas importantes do dia a dia, como de ligação à natureza. Também compõe músicas muito bonitas e motivadoras para as crianças. 

Uma das jovens pesquisou livros da autora no computador e foi buscá-los a outro espaço que não estava acessível ao público. E pensei o óbvio: há autores e livros muito bons que não estão visíveis nas livrarias. E é pena. Muita pena. Os leitores ficavam a ganhar. 

Portanto, o que está logo à frente dos olhos de quem entra nas livrarias são muitas vezes livros que rendem muito dinheiro: à livraria, aos editores, a quem os escreve.

Não costumo interessar-me por esses livros e acho que o farei cada vez menos. 


sábado, 25 de abril de 2026

25 de Abril!



 

Deram-me cravos vermelhos

Com carinho e amizade

Tinham um belo perfume

Deve ser da LIBERDADE!



sexta-feira, 24 de abril de 2026

Outras coisas de que me lembro

 

Na Faculdade, sobretudo no primeiro ano, naquelas aulas em que o discurso do professor era difícil de entender, eu sentia que gostava de saber muito mais. E, já que estou a abrir a caixa das fragilidades, eu sentia a falta de não ter ido estudar logo a seguir à escola primária. E a principal razão de não ter ido foi ser menina, ter de aprender a fazer tudo o que era próprio de meninas, como trabalhos domésticos, família, coser, bordar... O resto era conversa ociosa ou coisas de ricos.

Eram comuns outros casos semelhantes. E, muito pior ainda, eram as crianças que, pelos dez anos, começavam a trabalhar no duro para ajudar a família. E eram imensas. E andavam muitas vezes com fome e descalças.

Na altura da quarta classe, a minha professora insistiu, até onde pôde, para eu continuar a estudar, mas não foi bem sucedida. Talvez essa atitude da professora  tenha sido um dos principais motores para eu retomar os estudos na adolescência, vendo, na prática, que o esforço e as energias despendidas eram bem maiores do que se tudo fosse feito no tempo certo.

O ensino obrigatório para todos é das melhores conquistas de Abril. Pesem ainda as dificuldades de muitos alunos na conclusão do secundário, no acesso e na continuação no ensino universitário.

Ora, na Faculdade, quando eu podia, passava algum tempo a ler ou a estudar na biblioteca. E via, com alguma frequência, entrar, de repente, alguns alunos como se viessem a fugir, sentarem-se de repente em lugares vagos e dispersos, fingindo de imediato que estavam a estudar. Tudo isto era feito em clima de silêncio e de medo.

Sem demora, entravam uns sujeitos corpulentos e, sem alarde, dirigiam-se aos alunos recém-chegados. Em surdina prepotente, saíam com eles para serem interrogados pela pide, que não suportava opiniões nem palavras, nem gestos contra o regime. 

Também em intervalos das aulas, ou quando havia mais alunos a circular pelos corredores, misturavam-se os ‘bufos’, também corpulentos e de olhos que apontavam em todas as direções. Ouviam as conversas para poderem acusar os mais subversivos, que tinham a coragem de agir ou falar em prol da Liberdade.

Por estas e por outras, faz doer ouvir o partido que, na Assembleia da República e não só,  mente, engana, manipula, insulta,  discrimina, desrespeita, diz tudo o que lhe dá jeito ou lhe ocorre no momento,  dizer que antigamente é que era bom. Coitados, falam, falam, mas não sabem do que falam. 

E o dirigente desse partido chama os jornalistas para o verem na missa, a comungar, a ajoelhar-se, a benzer-se ... E diz-se ungido por Deus!

Até (me) faz bufar. De raiva!


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Coisas de que me lembro!

 

Imagem publicada hoje no Expresso Curto

No Dia 25 de Abril de 1974, eu estava no primeiro ano da faculdade de Letras do Porto, no curso de Românicas. A turma era grande e quase toda no feminino. Encantavam-me algumas aulas e noutras sentia-me como um peixinho muito pequeno e desajeitado fora de água. 

Lembro-me de uma professora ainda jovem que levava as aulas muito estruturadas, quase ditava os apontamentos, num misto de aluna e professora, mas que motivava para o estudo atento e para a leitura. 

Uma outra professora dava as aulas de pé, encostava-se muitas vezes ao quadro e fumava cigarro atrás de cigarro. Na aula havia silêncio e o que ela ensinava tornava-se encantatório.

Recordo outro professor que levou aulas e aulas com a análise das primeiras linhas de um livro do século XVI, estabelecendo relações infindáveis com outras obras e saberes da época. Havia quem quase adormecesse naquela aula em que o professor falava sempre olhando os papéis e quase nunca os alunos.

Outro professor, muito jovem e de barbas, comunicava bem melhor e parecia divertido com alguns conteúdos que transmitia.

Impossível esquecer também um outro professor, em início de carreira, que usava uma linguagem tão hermética que a grande parte de nós não entendia nada. Ele expunha os seus saberes, sem, aparentemente, a preocupação de se fazer entender. De vez em quando, circulavam papelinhos secretos, contra o modo fechado como o professor conduzia a aula. Ninguém tinha coragem de reagir em volta aita.

Era de História de Portugal um outro professor também muito jovem. Esse ia respondendo a questões. Durante o diálogo que estabelecia com os alunos, olhava de vez em quando para a porta, parecendo receoso de estar a cometer uma infração, respondendo a dúvidas. E um dia, num desses momentos de interação, a porta abre-se, entra o reitor, o professor fica corado, cessam as questões e a aula fica mais triste.


Se tiverem tempo e paciência, amanhã continuo, porque há outras coisas de que me lembro.


terça-feira, 21 de abril de 2026

Dai-nos, Senhor, palavras bonitas em cada dia!

 

Ontem já tinha falado do prazer de ouvir (e também tecer) um elogio - que não soe a falso nem a interesseiro, é claro. 

Hoje volto ao assunto, porque cada vez mais vejo a importância de dizer e ouvir boas palavras, como  um elogio, um agradecimento... 

Pode ser também um olhar, um sorriso,  um aceno,  um obrigada,  um momento de atenção, uma palavra dita com carinho...

Muitas vezes, vamos a conduzir, damos passagem, e o outro condutor passa indiferente como se nada se tivesse passado. 

Também abrir a porta a alguém para deixar passar ou segurar uns momentos na porta fica muitas vezes sem um obrigado. Quem o faz parece que nem repara na outra pessoa. Como se andássemos demasiado esquecidos ou distraídos. Ou sós no mundo.

Por isso, aqui juntei algumas palavras, em jeito de pequena oração (e que maltratada anda a católica religião!):


Dai-nos, Senhor, palavras boas em cada dia

Porque sem elas não há alegria.

Podem ser de elogio, de agradecimento,

ou de simples e humano reconhecimento.

Ou então em forma de sorriso;

o mundo anda triste e violento

fazendo pensar que não há siso.

 

Quando se vê algo bonito e bom

que nos aquece o coração,

Por que não elogiar?

E 'se Deus nos deu voz' 

por que não boas palavras usar?


Dêmos e recebamos, Senhor, boas palavras em cada dia

que para a alma são alimento,

como para o corpo o pão é sustento.

Precisamos de muita força para dizer não à tirania!


domingo, 19 de abril de 2026

Domingo com ramos de árvore floridos e com bola também

 

Há muitos anos, tive uma amiga que me disse uma coisa que não esqueci: 'Escreve, enquanto as árvores estão floridas'. 

Há dias, um amigo incentivou-me a escrever, dizendo gostar do que escrevo.

Não sei se é problema de geração, mas fico sem jeito perante os elogios, embora me saibam bem. A quem não sabem? Quem não gosta de mimos que julga serem verdadeiros? E as palavras são dos mimos melhores que existem.

Porém, a moda atual não é elogiar os outros, mas enaltecer o ego, evidenciando virtudes próprias e marcando defeitos dos outros.


Hoje é domingo, estou em casa e está bom tempo. Olhei as rosas amarelas dos canteiros, fui ao quintal com a velha Castanha ao meu lado e voltei para dentro com vontade de abrir o computador. 

É que ver árvores floridas no meu quintal e saber que alguém pode gostar das minhas palavras são um bom estímulo para me sentar a escrever.

Mas devo dizer uma coisa: também o faço por algum egoísmo. É que se não escrevesse, por pouco que seja, teria menos alegria ao ver as árvores floridas e ao ouvir palavras bonitas que dão prazer. Apetece-me dizer: 'Escrever faz (-me) bem!


Bom fim de tarde deste domingo de sol!

E, como hoje jogam os grandes da bola, desejo que a vossa vitória vos saiba bem.

Para mim, vitória vitória terá/teria de ser azul. Será?


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Tocar piano sem falar francês!


Ontem fui à Casa da Música, no Porto, assistir a um concerto de piano. Durou 2 h, com intervalo. A primeira parte foi preenchida com o 'Requiem' de Mozart; a segunda, com a 'Sinfonia Fantástica' de Berlioz.

Nos dias que correm, podemos interrogar-nos sobre se dá prazer ouvir um pianista em palco - no qual apenas existe um piano - durante duas longas horas

Pois bem, apesar de nada versada em piano, gostei. Gostei muito. E gostei também do ambiente durante o espetáculo: do silêncio por parte do público, de não se ouvir nenhum telemóvel, de nenhuma foto ser tirada, de quase não existirem tosses...

Fiquei com vontade de lá voltar em breve, sobretudo em concertos de fim de tarde, porque cada vez sou menos notívaga. Da beleza tranquila e inspiradora gosto cada vez mais.

O pianista era Vadym Kholodenko, um músico muito premiado e ainda jovem da Ucrânia.

Durante o concerto, iam-me passando coisas pela cabeça, como conversas que vou tendo com a minha neta. Ela aprende piano, mas sem paixão. Eu digo-lhe às vezes: 'Quem me dera tocar piano'. Ela, então, responde na sua graciosa inocência: 'Avó, se quiseres, eu ensino-te'. Pois, tal como a grande maioria das pessoas da minha geração, não tive a possibilidade de 'tocar piano e falar francês'. Fiquei-me pela língua, o que foi muito bom. 

O mundo atual está globalizado. Ontem, viam-se muitos estrangeiros na Casa da Música. Todos unidos e atraídos pela linguagem universal da Música. E nos rostos havia sossego e alegria, o que também (me) tocou.


quarta-feira, 8 de abril de 2026

O café

 

Talvez por ainda ter na boca o gostinho bom do café do pequeno almoço, lembrei-me de algumas situações em que tomar café entra em ação.

É que 'tomar café' pode dar para tudo e mais alguma coisa. Por exemplo, dizer 'vamos tomar café' pode ser conversar, conviver, estar com alguém, sem sequer o café vir para a mesa.

Também  o convite 'anda tomar café comigo em minha casa' pode significar uma boa e partilhada amizade ou até mais intimidade.

Mas o que desarma qualquer um é quando surge o convite 'Vamos tomar café' e a resposta é: 'Eu não tomo café'. É como se a mesa ficasse vazia ou aquecêssemos as mãos em chávena quentinha de café e, de repente, ficasse gelada.

Esta semana, fui ao cinema com amigas. Depois, fomos 'tomar café', sem vir sequer café para a mesa, apesar de sermos todas - acho eu - apreciadoras.

E eu ia pensando como é bom ter pessoas amigas com quem 'tomar café', em dias em que o tempo tantas vezes escasseia para os outros, em dias em que não nos saem da cabeça governantes que maltratam o mundo, que passam a vida a vangloriar-se a si próprios, a culpabilizar e a responsabilizar apenas os outros...

O que vale é que o prazer de coisas boas e simples como 'tomar café' em casa ou com pessoas amigas ninguém nos pode tirar. 

Muitas pessoas já não o podem fazer.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

E depois da Páscoa


Aberto o computador, e também as portadas para entrar a luz da manhã, olho os retratos das minhas filhas ainda adolescentes - feitos há muito tempo em viagem feliz a Paris -, o quadro pintado por uma colega e amiga pintora, um ovo de loiça com ovinhos da Páscoa, um saquinho de amêndoas que não foi aberto...

E escrevo sobre estes dias de Páscoa. Ter tempo traz também alguma doçura. Diferente mas igualmente boa como a que vamos ingerindo por estes dias. Apesar dos exageros que gostaria de recusar. Conseguirei cumprir algumas promessas que faço a mim própria? Vou ver se é desta. O que vale é que tenho ido ao ginásio e tenho feito yoga. Mas não basta, Maria, digo para mim própria, com calma e sem obsessões.

Ontem, domingo de Páscoa, recebi a visita pascal em casa. Não sabia a hora da vinda do compasso, mas ouvi o som da campainha festiva que o anunciava na rua. Como agora muita gente não está em casa ou não tem vontade de abrir a porta nesse dia, quase tive de ir chamar o grupo para que entrasse.

Por coincidência, um afilhado meu estava cá em casa e recebêmo-lo em conjunto. E lemos a oração, e rezámos o Pai-Nosso, e recordámos brevemente tempos passados de escola, onde eu então trabalhava, e que um dos elementos frequentava, e desejámos Boa Páscoa uns aos outros...

E gostei de ver a diversidade do grupo: pessoas de Gondomar, mas também brasileiros e de África, juntos num propósito de comunicar alegremente e afirmar valores em que acreditam.

Enquanto isto, Trump ia mostrando a sua ira ao Irão, país que também é conhecido pela sua ira. O presidente americano, usando insultos, fez mais um ultimatum que, como tantos outros, seria alterado. E, assim, a ira vai aumentando, perante o silêncio forçado e sofrido de tantos inocentes. E mortes. Muitas mortes. E muita destruição.

E, poucas horas antes, o homem que se julga senhor do mundo - ou, melhor, do seu petróleo - falava de Deus e de ser capaz de vencer o mal!

Hoje é segunda-feira de Páscoa, um dia (quase) normal de trabalho. E mais um dia de guerra, como, infelizmente, se vai tornando normal.

Porém, ser um pequeno grupo de homens, megalómanos, de loucura e ambição desmedidas a provocar tantos danos no mundo, isso é que não é normal.


Bons dias de Páscoa, enquanto for possível!


terça-feira, 31 de março de 2026

Páscoa

 

Postal enviado por: ac@contadoresdehistorias.com



quinta-feira, 26 de março de 2026

Abertura

 

Hoje, a minha cadela - a Castanha - foi vista pela veterinária. Apesar de ter sido sempre bastante saudável, tem alguns problemas de articulações, justificados pela idade. Nasceu em 2011, portanto já tem 15 anos. 

Agora, que abri o computador, lembrei-me do texto que há pouco escrevi, para a coletânea proximidades (2025) sobre ela. Partilho-o agora.

 

Foi adotada depois de recolhida, muito pequenina, fora de um portão tapado e fechado, numa rua de aldeia de pouco movimento. Parecia ter caído, assustada, de uma árvore qualquer e ficado ali muito quieta, com medo de ser calcada ou absorvida pela terra. Não tinha chip, ninguém a conhecia, ninguém a procurou, estava com fome e tremia de medo.

 Chegando a nossa casa, trazida pelo filho de uma amiga, que nome escolher para ela? Olhando para a cor e tamanho daquela cadelinha, quase recém-nascida e que lembrava uma castanhinha, logo surgiu: Castanha.

A Castanha cresceu, mas nunca gostou de estar só.

Nos tempos de suposta solidão, a Castanha arrasta o tapete, aninha-se sobre ele, junto ao portão de grades, e ali fica à espera que alguém passe na rua, ou entre, ou comunique com ela. Faz lembrar pessoas à janela, que se querem abrir aos outros e não ficar na sua casca fria de fruto frágil e só.

 

É que há muitas janelas,

No sofá, prontas a abrir.

Mas por atuais sinais,

Melhor é olhar os demais,

Comunicar e sorrir!

 


sexta-feira, 20 de março de 2026

Arte


A arte tem tantas formas

a embelezar cada dia;

Trabalhá-la ou conhecê-la

É repartir alegria.

 

Proliferam os talentos

Em terras de Gondomar:

Artesãos e escritores,

Pintores e escultores,

E tantos a acrescentar.

 

Ler, escrever e contar

Foi arte que nos chamou.

E o trabalho de vida inteira,

Em prata, ouro e madeira

Gondomar celebrizou.

 

Tantos modos de expressão

Nós podemos encontrar.

Parabéns a quem produz

ou na arte encontra luz

Para a vida celebrar!


In proximidades, Seda Publicações, 2025

quarta-feira, 18 de março de 2026

'Pai e filho e mar'

  

Enviado por: Asas e livros - AC<ac@contadoresdehistorias.com




quarta-feira, 11 de março de 2026

Raisparta a solidão!

 

Ainda não há muitos anos, confesso que a palavra solidão me dizia bem menos do que me diz agora. Achava até ideia lamechas e com cheiro a queixume. Eu tinha tanto para fazer: a escola, a família, a casa, os livros que gostava de ler, os textos que queria escrever, que ouvir a palavra solidão soava a ociosidade.

A vida, porém, vai alertando, com perdas e ganhos, para essa injustiça de pensamento e fraco entendimento do mundo.

Só compreendemos melhor os outros quando passamos por situações semelhantes. Nada é pior do que a indiferença, tipo: não sei o que sentes nem me interessa saber, porque não sei o que isso é. Ou então, a minha dor é bem mais forte do que a tua - ainda que seja evidente que não é assim. 

Tudo isto me veio à cabeça ao ouvir hoje uma de quatro irmãs que sempre viveram juntas, numa casa grande e antiga de que cuidavam como se fosse uma parte importante da família, porque nela todas tinham nascido e vivido. A casa tinha assistido a casamentos, a nascimentos, a alegrias, a tristezas, a doenças, a mortes...

Há dias, uma dessas quatro irmãs faleceu e as três que ficaram sentiram-se profundamente tristes e orfãs, quebrando-se o todo que todas formavam, com todo o amor que sempre repartiam e que era sagrado como Deus que adoravam e que estava presente em tudo o que faziam. Por elas e pelos outros.

E ela, uma das quatro irmãs, agora três, todas nascidas até aos anos cinquenta do século XX, mencionava a falta de ânimo atual e a solidão que via aumentar na casa e na família que chegaram a julgar eternas. No tempo em que todas as cadeiras da mesa estavam preenchidas e a palavra solidão ainda não tinha chegado. 

E alarguei a ideia da solidão - que, de uma forma ou outra, toca a todos - a tantos homens e mulheres que não têm ninguém para conversar, para desabafar, para contar as peripécias do dia a dia; para dizer o que dói, como dói, porque dói...

E tantas pessoas vivem em aldeias isoladas, e outras tantas isoladas em apartamentos de cidades que muitos degraus ou elevadores avariados separam da rua, dos pequenos prazeres de tomar um café servido quente à mesa em dia gelado, de dizer bom dia, de trocar sorrisos, de ter companhia, de ser-se notado... 

Tanta gente que não recebe um beijo, que não tem um abraço, que não ouve um elogio nem palavra carinhosa, que não vê um olhar meigo e calmo, que não sente outra mão na sua mão...

É tão mau quando isto acontece, quando tantos homens e mulheres vivem sós e são velhos. Alguns ficam sine die no hospital, apesar de terem alta, ou vivem num lar e as visitas são para os outros...

E, no entanto, têm sonhos, têm ideias, têm recordações, têm histórias para contar, veem-se ao espelho e a imagem  esconde muito do que ainda sentem; não gostam de ser tratados como coisas feias e desajeitadas e paradas no tempo; vão calando as palavras de que se esquecem cada vez mais, sabendo-se cada vez mais sós e tantas vezes em s.o.s.

Raisparta a solidão!

 



segunda-feira, 9 de março de 2026

Quando o político vem, o pobre desconfia!

 

Hoje, o presidente da República eleito vai tomar posse. Votei nele e vou tentar ver pela televisão as cerimónias. Oxalá o Chega não chegue para estragar a festa, como tantas vezes gosta de fazer com muito ruído e aparato.

O presidente cessante, o homem dos afetos, dos abraços, das imprevisibilidades, das selfies, das matreirices, das palavras ditas a qualquer hora e a propósito de quase tudo, das dissoluções da assembleia, do imbróglio no 'caso das gémeas', das hérnias, dos gelados comidos com prazer, das viagens, das aulas dadas sem papel, das gaffes e momentos aproveitados por humoristas, do calor humano depois do gelo de Cavaco... 

Tudo e mais alguma coisa, mas também o rei da empatia, da proximidade com os cidadãos, da prova de que os políticos não estão num pedestal, onde muitos se colocam, mesmo que a base estale de fragilidade e tenham sempre de se desviar para pôr os pés e não caírem.

Marcelo aparecia sempre sozinho, Seguro irá ter a companhia da mulher e dos filhos. E trocará muitos sorrisos. E será um homem feliz, porque os números não enganam: foi o presidente que teve mais votos. Mas, como homem consciente e sério que parece ser, também sabe que a vida no governo e no país não está fácil e a situação internacional está ainda mais difícil. Vai ter de dizer sim muitas vezes e não outras tantas. E sofrer as consequências das opções que tomar, sejam elas quais forem. Difícil, Tó Zé! Mas chegado aqui, há 'estrada para continuar'. Bora lá.

Dizem as notícias que a primeira visita oficial do novo presidente vai ser a uma aldeia do interior, onde mora uma dezena de pessoas e onde se instalou muita solidão e desamparo. Ontem, vi uma das habitantes dessa aldeia com um sorriso de sábia descrença nos políticos que a visitam, habituada a que está ao esquecimento ou a receber visitas e promessas de políticos apenas em campanhas eleitorais. Essa descrença é partilhada por muita gente, porque, infelizmente, são demasiados os casos de políticos que se servem em vez de servirem as pessoas e que falam, falam, falam, mas que, chegados ao podium do poder, se remetem ao silêncio.

O Seguro trará segurança e confiança ao país? Deus queira que sim. E que seja capaz de trabalhar para que haja menos solidão e desamparo em tantos setores da nossa sociedade. 

A cerimónia já começou. Os trabalhos de Seguro também.

 

P.S. Senhor Professor Marcelo, apareça de vez em quando. O Tó Zé é fixe, mas o senhor também foi. Cada um à sua maneira, é claro. 




domingo, 8 de março de 2026

Diferenças

 

No tempo em que muitas crianças deixavam a escola depois da quarta classe, muitos afazeres logo os esperavam, mesmo que bem gostassem de continuar a estudar. O abandono escolar acontecia por falta de dinheiro na família, por preconceito, para ajudar no trabalho dos pais...

Às meninas cabia sobretudo o trabalho doméstico: cuidar da casa, dos irmãos, dos avós… Muitas dessas meninas iam buscar água ao poço da aldeia, segurando vasilhas grandes nas suas mãos ainda pequeninas. Iam e vinham em grupo feminino de diferentes idades e seguiam conversas das mulheres que, tanto falavam alto, como baixavam a voz para segredarem o que sabiam ou o que lhes ia na alma, como discutiam, como davam gargalhadas, como insultavam, como ameaçavam…

Nas histórias que contavam, entrava com frequência a figura do marido: «O meu homem…», nomeado muitas vezes sem o eme final.

As meninas mais curiosas escutavam as conversas, mas sem compreender muita coisa. Porém, quando as mulheres se apercebiam que estavam a ser escutadas, desciam o olhar até elas – segurando com mãos firmes o caneco da água que transportavam à cabeça – e murmuravam, como se lançassem cartas para o futuro:

-  Vós pra lá ides!

Algumas das meninas entreolhavam-se, continuavam sem compreender, mudavam a vasilha da água para a outra mão e a calçada parecia mais comprida, misteriosa e íngreme. De repente, o pensamento recuava-lhes até ao seu tempo de escola, em que ocupavam as filas de trás, aonde chegavam palavras pequeninas, enquanto frases mais longas e com futuro se destinavam sobretudo às meninas das filas da frente.

Havia, contudo, professoras com o dom de descobrir nas crianças vontade e capacidade para continuar a estudar. Não queriam que as suas vidas fossem pela água abaixo. Porém, tais palavras eram muitas vezes levadas pelo vento.


Oh! Não me venham dizer que no tempo da outra senhora é que era bom!

In proximidades, Seda Edições, 2025 

 

sábado, 7 de março de 2026

Pedra


Na aldeia, as mulheres usavam o cabelo comprido. Quase sempre preso durante toda a vida, tal como se sentiam desde as horas cansadas e doloridas em que tomavam consciência de si.

Algumas – poucas – faziam tranças antes de o enrolarem e prenderem atrás. Talvez as mais românticas, as que liam livros e revistas com histórias de amor que as faziam suspirar. Ou as que ouviam palavras que lhes adoçavam a vida e lhes davam confiança.

Porém, as que se só ouviam falas bravias e agrestes penteavam-se como mais uma obrigação: como lavar a roupa, como limpar a casa, como fazer a comida à hora certa, como ouvir todas as culpas pelos males domésticos, como se abrir para o marido…

Um dia, uma dessas mulheres estava a chorar, enquanto se penteava, sentada numa pedra fora de casa. Gostava de cortar o cabelo, mas o marido não deixava, nem o pai o tinha nunca consentido. Se o conseguisse, seria também um modo de banir de si palavras repisadas e sem contraditório, como obediência e submissão.

 

Atualmente, a rua onde viveram essas mulheres-Sansão está em ruínas. Algumas dessas mulheres, ao longo da vida, viram as suas forças a decair, delas não ficando pedra sobre pedra. Outras, enfrentando dureza antiga e petrificada, não deixaram de partir pedra para evitar derrocadas.

 In proximidades, Seda Edições, 2025


terça-feira, 3 de março de 2026

Sim, foi feliz o sábado passado!


Este foi o texto que a Cristina Pinto - a ilustradora - e eu - a autora da história - partilhámos no sábado passado.

Boa tarde a todos! Em primeiro lugar estou contente por revisitar a UNICEPE, aonde vinha com alguma frequência no meu tempo de faculdade. A partir de agora, posso voltar com mais vontade. Obrigada por esta oportunidade.

Agradeço também à Editora Novembro que a escolheu para apresentarmos a segunda edição deste nosso livro. Pela reedição e pelas palavras elogiosas ao livro, também o nosso agradecimento.

E obrigada, querida família, queridos amigos, por terem vindo, o que nem sempre é fácil conseguir nos dias que correm. Ou porque há outras coisas para fazer, ou porque o cansaço do dia a dia é grande e apetece não ter programa, não cumprir horários ou, então, ficar em casa ou a desfrutar do sol. Ou porque há compromissos agendados, ou se vive longe, como são as razões de não ter cá as minhas duas filhas e os meus dois netos. Tenho um deles e, tal como os primos que também estão cá, felizmente gostam de livros, o que é uma janela aberta para muitas coisas boas da vida e uma ajuda para acreditar no futuro.

Para mim, é um gosto muito grande ver-vos todos aqui para a apresentação desta segunda edição do livro As fadas do Bosque das Cores e das Estórias, história de que continuo a gostar muito, desculpem a imodéstia, e cujas ilustrações da Cristina Pinto, sempre achei maravilhosas pela alegria das cores, pelas personagens a que deu vida, pelos cenários que recriou…

E desculpem ser juíza em causa própria, mas alguns dos temas são cada vez mais importantes na nossa vida atual, como o facto de as fadas não quererem viver fechadas apenas na sua cor.

E para ti, Cristina, um obrigada muito especial pela tua amizade e pelo teu trabalho tão criterioso. Só por curiosidade, e espero não estar a ser intrometida, na mesa de trabalho da Cristina, juntamente com os materiais de desenho, de pintura, de recorte, etc estava sempre a cópia da história, para ir aferindo pormenores.

Quando apresentámos a primeira edição, ainda no tempo da pandemia, convidámos para a apresentação a Dra Idalina Ferreira, querida colega e amiga, com quem muito se aprende, e que, nessa altura, partilhou palavras sempre atentas, rigorosas, profundas e com graça, o que também é muito bom. Obrigada, Idalina, por teres aceitado de novo o nosso convite.


Quando pus o cartaz/convite no meu blogue, tive um comentário de alguém que me desejou um dia feliz para hoje. Uma ideia muito simples, mas que me fez pensar na importância de momentos como estes, em que, cada um à sua maneira, se aproxima da arte e da beleza, seja pela escrita, pela leitura, pelos desenhos, pela edição dos livros…

 Já tivemos o prazer de apresentar a 1ª edição do livro a algumas centenas de crianças do 1º ciclo, de agrupamentos de Escolas de Valbom e das Antas, com sessões dinâmicas de leitura de uma resenha da história, debate a propósito das ideias veiculadas no livro, seguido de uma oficina de criação de uma floresta para a qual as crianças fizeram personagens para a habitar, tendo, árvores e personagens, ficado a morar no teto das bibliotecas. Foi muito prazeroso verificar, no terreno, as potencialidades de trabalho que o livro proporciona junto dos alunos do 1º ciclo, do primeiro ano ao quarto ano. O entusiasmo que se conseguiu provocar nos meninos, a interação entre estes e nós durante o debate e, finalmente, a participação ativa deles na criação de habitantes para a floresta, ultrapassou as nossas melhores expectativas. Foram momentos muito bons, que nos encheram o coração, pela adesão, entusiasmo e alegria demonstrados.

 Só uma curiosidade! Entre os habitantes que as crianças desenharam e recortaram para habitar a floresta, havia animais e fadas, naturalmente. Um dia, um menino perguntou: posso desenhar um fadinho?

 Também fizemos uma atividade, a propósito do livro, com um grupo de meninos, durante um dia, na Biblioteca Municipal de Gondomar, em que o resultado final foi a apresentação de um teatrinho de marionetas criadas por eles, apresentado às famílias e aos presentes na biblioteca.

 Vamos tentar continuar a dinamizar mais momentos deste género em mais algumas escolas, para estimularmos a leitura, a imaginação e a criatividade.

E agora, podemos ler uns pequenos excertos do nosso livro. Espero que gostem.

Muito obrigada, mais uma vez, por terem vindo e que continuemos a encontrar-nos! Também através dos livros. Um abraço para todos.