Enviado por: Asas e livros - AC<ac@contadoresdehistorias.com
Ainda não há muitos anos, confesso que a palavra solidão me dizia bem menos do que me diz agora. Achava até ideia lamechas e com cheiro a queixume. Eu tinha tanto para fazer: a escola, a família, a casa, os livros que gostava de ler, os textos que queria escrever, que ouvir a palavra solidão soava a ociosidade.
A vida, porém, vai alertando, com perdas e ganhos, para essa injustiça de pensamento e fraco entendimento do mundo.
Só compreendemos melhor os outros quando passamos por situações semelhantes. Nada é pior do que a indiferença, tipo: não sei o que sentes nem me interessa saber, porque não sei o que isso é. Ou então, a minha dor é bem mais forte do que a tua - ainda que seja evidente que não é assim.
Tudo isto me veio à cabeça ao ouvir hoje uma de quatro irmãs que sempre viveram juntas, numa casa grande e antiga de que cuidavam como se fosse uma parte importante da família, porque nela todas tinham nascido e vivido. A casa tinha assistido a casamentos, a nascimentos, a alegrias, a tristezas, a doenças, a mortes...
Há dias, uma dessas quatro irmãs faleceu e as três que ficaram sentiram-se profundamente tristes e orfãs, quebrando-se o todo que todas formavam, com todo o amor que sempre repartiam e que era sagrado como Deus que adoravam e que estava presente em tudo o que faziam. Por elas e pelos outros.
E ela, uma das quatro irmãs, agora três, todas nascidas até aos anos cinquenta do século XX, mencionava a falta de ânimo atual e a solidão que via aumentar na casa e na família que chegaram a julgar eternas. No tempo em que todas as cadeiras da mesa estavam preenchidas e a palavra solidão ainda não tinha chegado.
E alarguei a ideia da solidão - que, de uma forma ou outra, toca a todos - a tantos homens e mulheres que não têm ninguém para conversar, para desabafar, para contar as peripécias do dia a dia; para dizer o que dói, como dói, porque dói...
E tantas pessoas vivem em aldeias isoladas, e outras tantas isoladas em apartamentos de cidades que muitos degraus ou elevadores avariados separam da rua, dos pequenos prazeres de tomar um café servido quente à mesa em dia gelado, de dizer bom dia, de trocar sorrisos, de ter companhia, de ser-se notado...
Tanta gente que não recebe um beijo, que não tem um abraço, que não ouve um elogio nem palavra carinhosa, que não vê um olhar meigo e calmo, que não sente outra mão na sua mão...
É tão mau quando isto acontece, quando tantos homens e mulheres vivem sós e são velhos. Alguns ficam sine die no hospital, apesar de terem alta, ou vivem num lar e as visitas são para os outros...
E, no entanto, têm sonhos, têm ideias, têm recordações, têm histórias para contar, veem-se ao espelho e a imagem esconde muito do que ainda sentem; não gostam de ser tratados como coisas feias e desajeitadas e paradas no tempo; vão calando as palavras de que se esquecem cada vez mais, sabendo-se cada vez mais sós e tantas vezes em s.o.s.
Raisparta a solidão!
Hoje, o presidente da República eleito vai tomar posse. Votei nele e vou tentar ver pela televisão as cerimónias. Oxalá o Chega não chegue para estragar a festa, como tantas vezes gosta de fazer com muito ruído e aparato.
O presidente cessante, o homem dos afetos, dos abraços, das imprevisibilidades, das selfies, das matreirices, das palavras ditas a qualquer hora e a propósito de quase tudo, das dissoluções da assembleia, do imbróglio no 'caso das gémeas', das hérnias, dos gelados comidos com prazer, das viagens, das aulas dadas sem papel, das gaffes e momentos aproveitados por humoristas, do calor humano depois do gelo de Cavaco...
Tudo e mais alguma coisa, mas também o rei da empatia, da proximidade com os cidadãos, da prova de que os políticos não estão num pedestal, onde muitos se colocam, mesmo que a base estale de fragilidade e tenham sempre de se desviar para pôr os pés e não caírem.
Marcelo aparecia sempre sozinho, Seguro irá ter a companhia da mulher e dos filhos. E trocará muitos sorrisos. E será um homem feliz, porque os números não enganam: foi o presidente que teve mais votos. Mas, como homem consciente e sério que parece ser, também sabe que a vida no governo e no país não está fácil e a situação internacional está ainda mais difícil. Vai ter de dizer sim muitas vezes e não outras tantas. E sofrer as consequências das opções que tomar, sejam elas quais forem. Difícil, Tó Zé! Mas chegado aqui, há 'estrada para continuar'. Bora lá.
Dizem as notícias que a primeira visita oficial do novo presidente vai ser a uma aldeia do interior, onde mora uma dezena de pessoas e onde se instalou muita solidão e desamparo. Ontem, vi uma das habitantes dessa aldeia com um sorriso de sábia descrença nos políticos que a visitam, habituada a que está ao esquecimento ou a receber visitas e promessas de políticos apenas em campanhas eleitorais. Essa descrença é partilhada por muita gente, porque, infelizmente, são demasiados os casos de políticos que se servem em vez de servirem as pessoas e que falam, falam, falam, mas que, chegados ao podium do poder, se remetem ao silêncio.
O Seguro trará segurança e confiança ao país? Deus queira que sim. E que seja capaz de trabalhar para que haja menos solidão e desamparo em tantos setores da nossa sociedade.
A cerimónia já começou. Os trabalhos de Seguro também.
P.S. Senhor Professor Marcelo, apareça de vez em quando. O Tó Zé é fixe, mas o senhor também foi. Cada um à sua maneira, é claro.
No tempo em que muitas
crianças deixavam a escola depois da quarta classe, muitos afazeres logo os
esperavam, mesmo que bem gostassem de continuar a estudar. O abandono escolar
acontecia por falta de dinheiro na família, por preconceito, para ajudar no
trabalho dos pais...
Às meninas cabia sobretudo
o trabalho doméstico: cuidar da casa, dos irmãos, dos avós… Muitas dessas meninas
iam buscar água ao poço da aldeia, segurando vasilhas grandes nas suas mãos ainda
pequeninas. Iam e vinham em grupo feminino de diferentes idades e seguiam
conversas das mulheres que, tanto falavam alto, como baixavam a voz para segredarem
o que sabiam ou o que lhes ia na alma, como discutiam, como davam gargalhadas,
como insultavam, como ameaçavam…
Nas histórias que contavam,
entrava com frequência a figura do marido: «O meu homem…», nomeado muitas vezes
sem o eme final.
As meninas mais curiosas escutavam
as conversas, mas sem compreender muita coisa. Porém, quando as mulheres se
apercebiam que estavam a ser escutadas, desciam o olhar até elas – segurando com
mãos firmes o caneco da água que transportavam à cabeça – e murmuravam, como se
lançassem cartas para o futuro:
- Vós pra lá ides!
Algumas das meninas entreolhavam-se,
continuavam sem compreender, mudavam a vasilha da água para a outra mão e a
calçada parecia mais comprida, misteriosa e íngreme. De repente, o pensamento
recuava-lhes até ao seu tempo de escola, em que ocupavam as filas de trás, aonde
chegavam palavras pequeninas, enquanto frases mais longas e com futuro se
destinavam sobretudo às meninas das filas da frente.
Havia, contudo,
professoras com o dom de descobrir nas crianças vontade e capacidade para
continuar a estudar. Não queriam que as suas vidas fossem pela água abaixo.
Porém, tais palavras eram muitas vezes levadas pelo vento.
Oh! Não me venham dizer
que no tempo da outra senhora é que era bom!
Na aldeia, as mulheres
usavam o cabelo comprido. Quase sempre preso durante toda a vida, tal como se
sentiam desde as horas cansadas e doloridas em que tomavam consciência de si.
Algumas – poucas – faziam
tranças antes de o enrolarem e prenderem atrás. Talvez as mais românticas, as
que liam livros e revistas com histórias de amor que as faziam suspirar. Ou as
que ouviam palavras que lhes adoçavam a vida e lhes davam confiança.
Porém, as que se só ouviam
falas bravias e agrestes penteavam-se como mais uma obrigação: como lavar a
roupa, como limpar a casa, como fazer a comida à hora certa, como ouvir todas
as culpas pelos males domésticos, como se abrir para o marido…
Um dia, uma dessas
mulheres estava a chorar, enquanto se penteava, sentada numa pedra fora de casa.
Gostava de cortar o cabelo, mas o marido não deixava, nem o pai o tinha nunca consentido.
Se o conseguisse, seria também um modo de banir de si palavras repisadas e sem
contraditório, como obediência e submissão.
Atualmente, a rua onde
viveram essas mulheres-Sansão está em ruínas. Algumas dessas mulheres, ao longo
da vida, viram as suas forças a decair, delas não ficando pedra sobre pedra.
Outras, enfrentando dureza antiga e petrificada, não deixaram de partir pedra para
evitar derrocadas.
Boa tarde a todos! Em primeiro lugar
estou contente por revisitar a UNICEPE, aonde vinha com alguma frequência no
meu tempo de faculdade. A partir de agora, posso voltar com mais vontade.
Obrigada por esta oportunidade.
Agradeço também à Editora Novembro que a escolheu para apresentarmos a segunda edição deste nosso livro. Pela reedição e pelas palavras elogiosas ao livro, também o nosso agradecimento.
E obrigada, querida família, queridos
amigos, por terem vindo, o que nem sempre é fácil conseguir nos dias que
correm. Ou porque há outras coisas para fazer, ou porque o cansaço do dia a dia
é grande e apetece não ter programa, não cumprir horários ou, então, ficar em
casa ou a desfrutar do sol. Ou porque há compromissos agendados, ou se vive
longe, como são as razões de não ter cá as minhas duas filhas e os meus dois
netos. Tenho um deles e, tal como os primos que também estão cá, felizmente gostam
de livros, o que é uma janela aberta para muitas coisas boas da vida e uma
ajuda para acreditar no futuro.
Para mim, é um gosto muito grande ver-vos
todos aqui para a apresentação desta segunda edição do livro As fadas do Bosque
das Cores e das Estórias, história de que continuo a gostar muito,
desculpem a imodéstia, e cujas ilustrações da Cristina Pinto, sempre achei
maravilhosas pela alegria das cores, pelas personagens a que deu vida, pelos
cenários que recriou…
E desculpem ser juíza em causa
própria, mas alguns dos temas são cada vez mais importantes na nossa vida atual,
como o facto de as fadas não quererem viver fechadas apenas na sua cor.
E para ti, Cristina, um obrigada
muito especial pela tua amizade e pelo teu trabalho tão criterioso. Só por
curiosidade, e espero não estar a ser intrometida, na mesa de trabalho da
Cristina, juntamente com os materiais de desenho, de pintura, de recorte, etc
estava sempre a cópia da história, para ir aferindo pormenores.
Quando apresentámos a primeira
edição, ainda no tempo da pandemia, convidámos para a apresentação a Dra Idalina
Ferreira, querida colega e amiga, com quem muito se aprende, e que, nessa
altura, partilhou palavras sempre atentas, rigorosas, profundas e com graça, o
que também é muito bom. Obrigada, Idalina, por teres aceitado de novo o nosso convite.
Quando pus o cartaz/convite no meu
blogue, tive um comentário de alguém que me desejou um dia feliz para hoje. Uma
ideia muito simples, mas que me fez pensar na
importância de momentos como estes, em que, cada um à sua maneira, se aproxima da
arte e da beleza, seja pela escrita, pela leitura, pelos desenhos, pela edição
dos livros…
Já tivemos o prazer de
apresentar a 1ª edição do livro a algumas centenas de crianças do 1º ciclo, de agrupamentos
de Escolas de Valbom e das Antas, com sessões dinâmicas de leitura de uma
resenha da história, debate a propósito das ideias veiculadas no livro, seguido
de uma oficina de criação de uma floresta para a qual as crianças fizeram
personagens para a habitar, tendo, árvores e personagens, ficado a morar no
teto das bibliotecas. Foi muito prazeroso verificar, no terreno, as potencialidades
de trabalho que o livro proporciona junto dos alunos do 1º ciclo, do primeiro
ano ao quarto ano. O entusiasmo que se conseguiu provocar nos meninos, a
interação entre estes e nós durante o debate e, finalmente, a participação ativa
deles na criação de habitantes para a floresta, ultrapassou as nossas melhores
expectativas. Foram momentos muito bons, que nos encheram o coração, pela
adesão, entusiasmo e alegria demonstrados.
Só uma curiosidade! Entre os habitantes que as crianças desenharam e recortaram para habitar a floresta, havia animais e fadas, naturalmente. Um dia, um menino perguntou: posso desenhar um fadinho?
Também fizemos uma atividade, a propósito do livro, com um grupo de meninos, durante um dia, na Biblioteca Municipal de Gondomar, em que o resultado final foi a apresentação de um teatrinho de marionetas criadas por eles, apresentado às famílias e aos presentes na biblioteca.
Vamos tentar continuar a dinamizar mais momentos deste género em mais algumas escolas, para estimularmos a leitura, a imaginação e a criatividade.
E agora, podemos ler uns pequenos excertos do nosso livro. Espero que gostem.
Muito obrigada, mais uma vez, por terem vindo e que continuemos a encontrar-nos! Também através dos livros. Um abraço para todos.
No próximo sábado, apresentaremos a segunda edição do livro As Fadas do Bosque das cores e das estórias. É às 16 horas, na Unicepe, no Porto. Se puderem, apareçam. Serão muito bem-vindos.
Hoje, o 'Expresso Curto' diz que o povo mostrou que Seguro também é fixe, retomando o slogan de Mário Soares há quarenta anos, e votando nele em peso.
Ontem, dia de eleições presidenciais, o dia amanheceu sem chuva, sem vento, sem trovoada, sem granizo... Pelo menos aqui na minha zona nortenha. Oxalá tenha sido assim em todo o país. Foram umas tréguas muito boas quanto às tempestades e quanto às gritarias obsessivas de Ventura, que não se cansa de dizer, tipo Calimero, que todos se uniram para o tramar. Para além dos temas que repete até à exaustão.
Eu já tinha votado no domingo anterior e o dia foi normal, com a diferença de esperar pelas projeções eleitorais às oito da noite. Dei a sopa ao meu neto e, à hora prevista, estava eu de comando na mão para conhecer as previsões nos diferentes canais. Respirei de alívio. Ganharia Seguro e Ventura ficaria muito atrás. Isso foi o mais fixe daquela hora e daquele dia.
Nesses momentos, Ventura estava na missa, enquanto os jornalistas, fiéis às audiências, o esperavam bem junto à porta de madeira daquela 'casa de Deus' (como dizia a minha mãe) e onde estava o mediático ser humano - tantas vezes desumano - que separa pessoas, que cria ódios, que mente, que distorce a realidade, que engana... O que não é nada católico. E não me sai da cabeça esta contradição: exibir uma religião, como devotado seguidor, e praticar o contrário do que essa Igreja defende. Um espetáculo condenável, a meu ver, que também pode afastar ainda mais pessoas das igrejas - e muitas já estão quase vazias.
Muito positiva achei a mobilização de tanta gente para votar 'Pelo Seguro'. Poder-se-á dizer que muita gente votou não a favor de Seguro, mas contra Ventura. Se o fez, é porque viu mérito no homem que foi eleito Presidente da República. De facto, parece ser um homem decente, honesto, calmo, consciente dos problemas atuais... Dizem que não tem ideias. O melhor é ter poucas e boas do que ter muitas e não passarem do papel ou de promessas enganosas.
Tenho uma amiga que, ontem à noite, dizia 'Seguro é o meu Presidente'. Oxalá todos sintamos, com o tempo, que é o Presidente de todos os portugueses. E que fale o mais verdade possível. E que não desapareça quando a situação é grave, nem fale a toda a hora por tudo e por nada. E que não seja arrogante nem excessivamente vaidoso. E que peça desculpa quando necessário. E que não sirva sobretudo a si próprio e aos seus. E que não faça de conta que é super-homem que está acima dos demais. Isso seria muito fixe.
Ah, e quase na despedida, um beijinho ao Professor Marcelo, que tantos beijinhos e abracinhos distribuiu. Apetece-me dedicar-lhe, carinhosamente, uma canção: 'Com açúcar e com afeto'. Nunca tirei nenhuma selfie com ele, nem nunca tive vontade, embora no início até achasse piada, mas virou cansativo e, por isso, nada fixe.
Junto à casa da minha
infância, havia uma laranjeira antiga. Era muito alta e os ramos, exuberantes,
alargavam-se, dando fresca sombra em dias de sol. Vestindo as batinhas que a nossa
mãe costurava na sua máquina Singer, a minha irmã e eu ficávamos a brincar
longas horas debaixo da laranjeira. Era uma árvore tão alta que, se se olhasse
para cima, apenas se viam pássaros a esvoaçar de galho em galho. Estes, de tão
densos, nem deixavam ver o céu. As folhas secas iam caindo e eram engolidas
pela terra que abundava debaixo da laranjeira.
Ora, nessa altura, eu
tinha uma boneca de papelão – a minha preferida, se se pode dizer assim de um único
objeto que se tem. Era a minha boneca. Tinha as faces coradinhas e os olhos
azul escuro que não abriam nem fechavam, mas que pareciam olhar sempre para mim.
Só os bracinhos e as pernitas mexiam.
Um dia, enquanto brincava
sozinha debaixo da laranjeira, levantou-se um vento repentino, um relâmpago fez
garatujas no céu; logo a seguir um trovão rebentou e a chuva começou a cair. Rápida
e inesperada, era uma tempestade a faiscar e a estoirar no fim de tarde que
logo se fechou em noite.
Com medo, corri para
dentro de casa, deixando os brinquedos debaixo da laranjeira. Talvez ela os
protegesse e a minha mãe já estava a chamar.
Logo que acordei no dia
seguinte, fui a correr ver a minha boneca.
Incrédula, em vez de a reencontrar redondinha e inteira, deparei com pedaços
de papelão desbotados, amolecidos e quase desfeitos na lama. Descrente e desolada,
olhei para cima para ver se a densidade dos ramos e das folhas podia ou não ter
sido uma barreira protetora. No alto, como a bonança tinha voltado, os pássaros
esvoaçavam alegremente, como se nada tivesse acontecido. E que triste fiquei por
ver que não comungavam da minha dor ao deparar com a minha boneca já sem vida.
Tal como eu até àquele
dia, talvez os pássaros ainda não tivessem sentido o desgosto da primeira grande
perda.
Na viagem de carro de regresso da escola, o menino queixou-se à mãe:
- Os meninos da minha sala dizem que os meus desenhos são feios!
A mãe consolou-o, dizendo que gostava dos desenhos dele e de tanta coisa que ele faz, como as construções de legos e de outros jogos.
Mas o menino continuou:
- Dizem sempre que os meus desenhos são feios.
A viagem foi continuando e a conversa também, sempre à volta dos desenhos que a mãe dizia serem bonitos, mas que os coleguinhas do menino diziam serem feios.
Até que o menino concluiu:
- Eu gosto dos meus desenhos e eu é que mando no meu coração!
Chegaram do Brasil há uma meia dúzia de anos. Era difícil viver lá onde viviam, sobretudo porque várias vezes foram assaltados. Os filhos estavam bem, tinham o seu trabalho, as suas famílias e os seus amigos. Por isso, decidiram vir para Portugal. A idade já tinha avançado bastante, mas ainda teriam possibilidade de trabalhar e de viver mais em paz. Gostavam de Leiria, por isso foi o lugar escolhido para se instalarem. O ganha-pão seria uma pequena loja num centro comercial.
Nos primeiros tempos, foi difícil enfrentar a dureza de não terem clientes. Não eram conhecidos e sentiam até que o sotaque brasileiro criava uma certa desconfiança, que lhes custava vencer. Não perderam o ânimo, continuaram, foram ganhando confiança de clientes que iam aumentando. Sentiam-se felizes em Leiria, onde fizeram alguns amigos e aonde eram visitados de quando em vez pela família. Ah, e a arca congeladora estava cheiinha, para uns bons petiscos partilhados.
Na noite catastrófica da semana passada, acordaram sobressaltados, vendo a chaminé e telhas a voar como se fossem pedaços de papel. Era uma situação nunca vivida em mais de setenta anos de vida, nem cá nem na vida toda no Brasil. A casa, que é baixa e, talvez por isso, não completamente atingida velos ventos, ficou sem água, sem luz, sem ligações ao exterior. Como em todas as casas dos vizinhos que iam enfrentando o pesadelo como podiam. O barulho da queda de árvores próximas juntava-se à imensidão de estrondos de tantas coisas a cair desamparadas no chão.
Na manhã seguinte, incontactáveis, como milhares de pessoas em Leiria, foram arrumando os cacos. Como os vizinhos. Todos se iam entreajudando.
E as coisas congeladas da arca? - Perguntou uma familiar, numa intermitência de rede.
Estamos bem, não nos caiu nenhuma telha na cabeça, e isso é que mais importa, disseram eles.
Só não sabem é quando a vida vai recomeçar.
E o pior é que parece que ninguém sabe.
Gostava de ser, mas não sou muito de antecipações. Porém, desta vez, optei pelo voto antecipado. Não vá o diabo tecê-las e haver qualquer imprevisto que me impeça de ir votar na próxima semana.
Cheguei à escola, onde votei, antes das nove horas. Muito perto do portão, uma pequena instalação com plantas em garrafas de plástico, lembrando a necessidade de reciclagem e reutilização, para proteção da natureza.
À entrada, estavam dois seguranças e um homem para ajudar na consulta do painel e que, quando saí, me desejou, gentilmente, um bom domingo. A minha mesa seria a três, mesa onde estavam concentradas muitas Marias. Com o boletim de voto, recebi também dois envelopes - um para colocar o boletim com o voto e outro maior onde entrou o anterior. Foi então que o presidente da mesa me perguntou: A menina sabe como fazer?
Não gosto mesmo nada que me tratem por menina, mas ouvi a explicação toda, que ele estará neste momento a repetir e assim continuará, por certo, ao longo do dia.
Terminada a função, fui a uma confeitaria muito próxima comprar pão. Enquanto esperava na fila, vi um painel que informava que havia chocolate quente feito na hora e 'com chocolate verdadeiro'. E pensei: Ainda bem que há coisas verdadeiras. Para além do chocolate, é claro.
Quando cheguei a casa, falei com a minha para filha que hoje faz anos e, logo a seguir, mandei-lhe a foto de uma camélia do jardim. Quando nasceu, parecia que a Liberdade estava segura. Agora, não. Oxalá não fique cada vez mais frágil perante tantas e diferentes intempéries, onde cabem truculentas e gritadas aventuras.
Um bom domingo e que o sol não nos abandone!
Gosto muito de empadão, de carne ou de legumes, ou de carne e legumes ou só de legumes (como vou fazer hoje para o almoço). Há dias, no Expresso Curto, o jornalista dava uma receita de empadão, assunto que não é nada habitual naquela publicação. Achei graça e aproveitei para rever os ingredientes: cebola, alho, louro, carne, tomate...
O empadão veio a lume por ter sido palavra usada por Seguro, e dirigida como crítica a Ventura, no debate de terça-feira para as presidenciais. De facto, perante qualquer pergunta sobre um determinado assunto mais quente - por exemplo, Trump - Ventura tira o tacho do lume, para não se queimar, e enumera, em alta voz, todos os outros ingredientes que estão no seu receituário e que repete até à exaustão. Faz, no entanto, adaptações consoante o momento e o público, pondo mais ou menos pimenta, fogo mais vivo ou mais brandinho, de modo a agradar aos clientes que lhe oferecem votos e lhe aumentam o poder.
Por isso, a imagem do empadão que Seguro utilizou foi feliz e real. Eu, pessoalmente, prefiro empadão feito com mais calma, sensatez, humanidade e com ingredientes honestos e verdadeiros, que unam todas as pessoas que estão à mesa e não as excluam nem dividam por causa da origem, da cor ... E que o empadão não leve água benta, que se vai buscar ruidosa e hipocritamente para se ser notado, ignorando os valores de respeito humano, defendidos pela Igreja Católica, da qual se quer dar a ideia que se comunga.
Deste empadão, com miscelânea de ingredientes para confundir, enganar e atordoar não gosto. Causam grande tristeza, desconfiança e... uma enorme azia.
Os professores, os editores, etc. têm a vida cada vez mais difícil pela dificuldade em distinguir um texto original de um texto reproduzido pela inteligência artificial. Não queria estar na pele deles.
Enquanto era professora, recebi vários trabalhos que eram cópias do que se encontrava na net sobre o assunto. Ainda não havia IA. Na altura, era relativamente fácil detetar que eram cópia, porque bastava transcrever um excerto do texto no computador para que aparecesse na íntegra. Também a língua usada era com frequência o português do Brasil, o que ajudava a identificar quase logo a origem enganosa do texto.
Ora, nos tempos que correm, se um texto for produzido pela IA, julgo que é difícil, senão impossível, ver que não é original e apenas transcrito. Isto causa uma desconfiança imensa e pode acontecer num simples comentário, numa composição, num texto argumentativo, etc. Ainda bem que já não tenho de avaliar textos pretensamente produzidos por alunos.
Pelo pouquíssimo que sei da IA, julgo ser uma ferramenta de consulta fantástica para obter informações nas mais diferentes áreas, mas ser usada e assinada como sendo produção original é que me custa a aceitar. Essas práticas ocorrem até no meio universitário e em diferentes países.
Se isto assim continuar, desconfiamos cada vez do que ouvimos e lemos e, o que é pior, desconfiamos cada vez mais uns dos outros. E quem é sério e honesto nos trabalhos escritos que realiza também não fica excluído da desconfiança, que se vai generalizando. Ou então é olhado como um totó ingénuo que tem a mania que, sozinho, vai mudar o mundo!
Li há pouco uma notícia que me impressionou: muitos filhos já limitam o uso do telemóvel pelos pais idosos.
À primeira vista, causou-me impressão porque lembrei-me de pessoas que vivem sós, de mobilidade reduzida e que precisam de alguma coisa para lhes alegrar os dias, para além de programas de televisão da manhã ou da tarde e que tantas vezes contam coisas tão tristes que mais tristes tornam os dias. Só espero é que os filhos que retiram o telemóvel aos pais ou que lhes limitam o seu uso o façam 'com carinho' - expressão de que gosto e que a minha professora de yoga tantas vezes repete também com carinho. E que lhes ofereçam alternativas. E que os visitem. E que falem com eles. E que não os desvalorizem por serem velhos.
Mas também é muito mau ver pessoas de todas as idades a usar constantemente o telemóvel, mostrando que lhe prestam mais atenção do que ao que se está a passar à sua volta. Triste é ver famílias à mesa, cada um com o seu telefone ou ipad - como se não houvesse assunto para conversar. Ou em encontros familiares ou de amigos em que o que se está a passar passa para segundo plano porque o écran do telemóvel, sempre embalado pela mão e percorrido pelos dedos, ocupa o primeiro.
Nos dias que correm, o telemóvel é essencial às diferentes dimensões da nossa vida. Habituámo-nos a ele e faz-nos falta. E é um alvoroço de alma quando o perdemos ou não sabemos onde o deixámos! Mas, se quisermos, há tempo para tudo, mas que o telefone nos comande a vida e façamos dele o companheiro principal de todas as horas, isso não. Para saúde mental - de que tanto se fala - do próprio e de quem está à sua volta.
Gostava de lhes ter
perguntado o segredo do arroz que faziam quando era criança e que, para ela, era
o melhor arroz do mundo. Porém, as tias já cá não estão para lho revelarem. Os
móveis da cozinha estarão noutros lugares e as paredes já terão novos cheiros
impregnados. As cebolas e os alhos virão de longe e não da horta que elas
cultivavam em tempo certo.
Ora, a criança brincava
muitas vezes junto ao pequeno jardim ou no quintal. Perto do meio-dia, se sentia
uma flecha de cheiros e sabores do arroz a atravessar o muro que separava as
duas casas, ia logo a correr à espera de ouvir:
- Queres comer aqui?
Com a pressa, muitas
vezes até se esquecia de pedir à mãe. Quase a chegar, abrandava a correria,
passava pelo lavatório, que tinha sempre sabonete Patti, entrava na cozinha
devagar, depois de pedir licença, e aproximava-se timidamente da mesa já posta,
à espera da pergunta habitual.
Depois de o relógio bater
doze austeras badaladas, rezavam a oração de ação de graças, sentavam-se à mesa
e comiam quase em silêncio, sem ninguém partilhar o feliz deleite do almoço –
jantar, como era comum dizer-se. Cada uma guardava este e outros prazeres só para
si, não fosse parecer luxúria tal confissão.
Ficou-lhe por dizer às tias como gostava do
arroz que faziam e cujo cheirinho a fazia voar ao seu encontro. Também elas
nunca lhe falaram sobre o assunto. Porém, talvez adivinhassem esse gosto, porque,
de vez em quando, punham mais um prato na mesa.
O meu neto gosta que eu lhe conte histórias - muitas delas inventadas na hora - e sabe que já publiquei algumas. E que fui professora durante muitos anos. Quando passo com ele pela escola onde trabalhei muito tempo, reconhece-a, porque já lhe disse qual era.
Tem quatro anos e também reconhece os livros da avó, na estante que tem no seu quarto. Mas não me vê a sair para o trabalho nem a regressar. Também raramente me vê a escrever, porque faço-o quando a casa está mais silenciosa e não é uma atividade de todos os meus dias.
Quando está comigo, vê-me muitas vezes sobretudo a cozinhar para ele e para a família. Daí a pergunta: avó, és cozinheira?
- Quando vejo fotografias antigas, vejo como era bonita.
- Eu também e não sabia.
- Não sabias?
- Não, ninguém mo dizia.
- Mas eras.
- Muitas vezes não damos valor à beleza que temos.
- Na flor da idade, parece que nem temos tempo para nos olharmos como devia ser. Há tanta coisa para fazer.
- O tempo continua a fugir.
- E de que maneira.
- Mas sabes que até me custa ver fotografias antigas?!
- Porquê? Tens saudades?
- Não, não sou muito saudosa.
- Então?
- Acho que o tempo passa demasiado depressa e muitas vezes não se vive o que podia ser vivido de forma mais completa.
- Agora, o melhor é viver quanto e enquanto se pode.
- É verdade.
- No próximo treino, levo eu o carro.
- Ok, até amanhã.
Na idade em que a mãe ainda
tinha o cabelo preto, a filha não reparava como o cabelo dela era tão belo, nem
valorizava a cor e a beleza do seu. Só o reconhece agora ao ver fotografias
antigas que marcam, a cores ou a preto e branco, a efemeridade e a
irreversibilidade do tempo.
Nesse tempo já longínquo,
via a mãe a pentear-se e surpreendia-a o comprimento do seu cabelo solto e
pensava que nunca a tinha visto a secá-lo, feliz, ao sol.
Concentrada e com ar
sério, a mãe retirava os cabelos presos nos dentes do velho pente de osso, enrolava
o longo cabelo, prendia-o atrás com ganchos e, para o fixar melhor, colocava uma
rede fininha com dedos de delicadeza. Finalmente, alisava o cabelo com as mãos alongadas,
enquanto se via ao espelho, virando o rosto de um lado e do outro, para que não
lhe escapassem fios em desalinho, enquanto a filha ficava a olhá-la em silêncio
sossegado.
Distante estava ainda a noite
despenteada dos desassossegos.
In coletânea proximidades, Seda Publicações, 2025
Tal como na frase «Da
minha língua, vê-se o mar», de Vergílio Ferreira, do meu mundo, vejo o Mundo. E
o meu mundo é a minha casa.
Nele, busco a paz, mas são
imparáveis as imagens e as notícias que me chegam de conflitos e guerras.
Olho os meus livros, sabendo
que muitas histórias reais são de violência, discriminação, miséria, destruição,
morte, atingindo muitas crianças e quem delas queria cuidar.
Sei de velhos que ficam nos hospitais sem
ninguém os ir buscar, porque já não fazem falta a ninguém e à família falta
dinheiro, tempo, espaço, paciência.
Vejo pessoas de todas as
idades que sofrem de solidão, porque não são ouvidas, nem olhadas, nem
abraçadas, nem reconhecidas.
Oiço vozes de seres ditos
humanos, que se consideram messiânicos, e que tecem a sua vida de mentira, de arrogância,
de egocentrismo, de ganância, de cinismo, de ódio, de vingança.
Escolho palavras para os
meus pequenos textos, buscando sentido, correção e beleza, enquanto multidões desesperadas
procuram ajuda, comida, refúgio.
Sinto o cheiro queimado
de terras incendiadas e ruídos revoltados de rios e mares maltratados.
Felizmente, existem muitas
pessoas que, dentro ou fora do seu mundo, ajudam a melhorar muitas vidas, estejam
elas próximas ou distantes.
São inúmeros esses casos, tantas vezes desconhecidos,
porque as televisões raramente os divulgam e não tik-tokam nas redes
sociais.
Será possível dizer que todos
veremos ainda um Mundo melhor?
Ontem, ao fim da tarde, estando eu com o meu neto:
- Avó, tens medo de cobras?
- Tenho, meu amor, e num dia muito quente de verão, vi uma enorme.
- Onde, avó?
- No quintal, ao fim da tarde, quando eu andava a regar.
- Ficaste assustada?
- Fiquei, claro,
- Falaste com ela?
- Não, meu amor, eu não sei a linguagem das cobras.
- Eu sei, avó.
- Sabes? Como é?
- Zzzzzzzzzzzz!
Tenho este bonsai há cerca de uns trinta anos. Foi oferecido por uma amiga das minhas filhas num aniversário. Julgo que ainda mora no mesmo vasinho pequeno e, de mim, ao longo deste tempo, recebeu apenas água, o corte de algum raminho seco, um olhar de vez em quando e pouco mais.
Há tempos, por esquecimento ou por ausência mais prolongada, deparei com a planta a soltar tristemente as folhas amareladas e sem vida. A planta morreu, pensei eu. Porém, não a deitei fora. Quebrei um raminho com os dedos e não me pareceu seca; mudei-a para um lugar mais fresco, passava por ela e olhava-a com a quase certeza de que não resistiria, mas com alguma esperança que desse sinais de vida, apesar de o tempo de morte aparente já ir longo.
Como o meu neto gosta de plantas e de animais, ficou condoído e foi dizendo que a plantinha estava doente e perguntando se ia ficar boa.
Eu não podia alegrá-lo afirmando que ia voltar ao que era, porque seria iludi-lo. Eu estava convencida de que o bonsai nunca mais mostraria as suas folhinhas verdes e viçosas, talvez demasiado grandes porque eu nunca soube como podar a arvorezinha como deve ser.
Pois bem, hoje olhei para ela e... vi folhinhas a aparecer. Fiquei contente. Ai se não fossem estas pequenas alegrias como estaria a nossa mente na confusão do mundo atual?
Em breve, o meu neto vem cá a casa e vou logo mostrar-lhe a nova vida do bonsai. Vai ficar feliz e chamar a mãe para ver. Vou-lhe pedir que conte as folhas para que as some daqui para a frente. Oxalá ele não perca a esperança nessa soma, porque estamos a perdê-la em muita coisa que se passa à nossa volta. Valha-nos uma pequena planta renascida! E o olhar limpo e feliz de uma criança.