quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Cores na noite


domingo, 11 de janeiro de 2015

Paris - hoje

A velha do quiosque



Sempre vendera jornais. Não se via a fazer outra coisa. Desde muito nova que punha a tiracolo a saca que dizia JORNAL DE NOTÍCIAS. Parecia que já lhe conhecia o ombro, porque logo se ajustava, sem ser necessário puxar para a frente ou para o lado.
Como o tempo não era de ir muito à escola, andava pelas portas a vender os jornais. Conhecia os hábitos dos clientes: o jornal que compravam, os que lhe davam uma moedita para o mealheiro, os que lhe ofereciam uma bolacha, os que, sisudos, nem a olhavam...
Cresceu, casou-se, teve filhos, mas a profissão não mudou. Como as pernas iam pesando, foi ficando no mesmo sítio, junto um quiosque. Era conhecida pela velha do quiosque, mas o quiosque não lhe pertencia. Apenas o espaço próximo durante algumas horas da manhã.
Apesar da concorrência, manteve-se a harmonia durante vários anos. Cada um tinha os seus clientes, sem guerra nem guerrilha.
 Um dia, o quiosque não abriu, mantendo-se fechado durante meses. O dono havia morrido e os herdeiros não chegavam a acordo sobre a reabertura. Houve concurso. A velha do quiosque concorreu, mas a candidatura não foi aceite: não teria fundos suficientes para manter o negócio.
Em breve, o quiosque seria reaberto. Antes desse dia, a preocupação maior dos novos donos  foi afastar o pequeno negócio que, durante a manhã, era concorrente.  A velha foi obrigada a retirar-se uns metros. Porém,  não bastava. Teve de passar para o outro lado da rua, mas ainda era visível. Escondeu-se atrás de uma paragem de autocarro, mas ainda ficava perto. Procurou a cobertura de uma porta de prédio, mas os clientes não a viam...
Hoje, a velha do quiosque estava ao sol, do outro lado da rua. Junto dela, um pequenino monte de jornais. Aos poucos clientes que a procuravam vendia o jornal e desejava bom domingo.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Que je t'aime, Paris!

Há mais de uma dezena de anos, tive a oportunidade de ir a Paris, no mínimo, uma vez por ano.. Várias vezes fui também com a minha irmã, que também nutria um grande amor por aquela cidade. Houve fins da manhã passados em cafés que víamos em livros e jornais e onde se sentaram artistas e escritores. E fins de tarde em teatrinhos pequenos e em cujo palco se representavam peças de Ionesco, de Saint Exupéry...
E em pequenas livrarias sentia-se o ranger do soalho e os livros saltavam-nos para as mãos. Era como se disséssemos aos autores como era bom senti-los em Paris!
E o vinho. E o pão. E o queijo. E as tartes. E os pequenos hotéis que construíam saudades logo no presente. E os solitários das ruas. E os adormecidos clochards. E os bairros zangados das periferias.
E os cheiros  dos restaurantes do Quartier-Latin. E a longa rue du Rivoli com todas as lojas de repetidos souvenirs.
E o Louvre visitado aos bocadinhos; e a Avenida dos Campos Elísios cuja vastidão o olhar não consegue abraçar, e o rio Sena com os apaixonados no sossego beijado das margens. E os bouquinistes que mostram imagens de todos os tempos. Também lá estarão velhos e novos números de jornais como Charlie Hebdo.
Que triste é ver as cidades a morrer pelas  mãos febris  e armadas de alguns. 
Tal como milhões, tenho nos sentidos os rebentamentos de ontem, as gritadas sirenes, os grupos concentrados de polícias, os rostos de frio e de medo...
Paris, és cidade personificada. Neste momento, tens rosto recente de jornal com voz firme  que não quer deixar de desenhar as necessárias  linhas da LIBERDADE.



domingo, 4 de janeiro de 2015

Nostalgias e solidões

Se calhar, o título não é o mais sugestivo, quero dizer que não será o mais convidativo para esta época ainda festiva; há restos de doces, imagens de fogos de artifício, novidades da família reunida, a mesa mais colorida e alargada... Mas a vida é mesmo assim,
Nesta época do ano, são frequentes as alusões à infância, a sabores que se modificaram, ao bolo-rei cuja fava e brinde desapareceram por ordem da ASAE...
Para não falar de pessoas queridas que estavam sentadas à mesa, mas agora já não estão e que a presença de crianças, que vão nascendo, ajuda a ocupar.
Sim, é uma época de alguma eufórica nostalgia - um tempo, sem dúvida, de maior partilha, mas com muitos momentos em que apetecia ser monge recolhido ao silêncio, para dele obter novas forças.
Por outro lado, nos últimos dias, pude ver, em casa, alguns filmes que estavam à espera de visualização. Foi o caso de A Lancheira (The lunchbox), de Ritesh Batra, passado na cidade de Bombaim, na Índia, que, para além de ter personagens divertidas, apresenta o tema da solidão, vivido por pessoas de diferentes gerações. 
Uma jovem, insatisfeita com o seu casamento, encontra, por acaso, outra pessoa que, por sua vez, sente solidão pelo avançar da idade (confirmado pela frequência com que lhe davam o lugar no comboio), pelo facto de viver só, ansiando por manjares saboreados no prato e nas palavras.
Noutro filme - A rapariga que roubava livros (The book thief), de Brian Percival e passado durante a 2ª Guerra Mundial, uma menina sente a pesada solidão por ser entregue a outra "mãe" com mais possibilidades de a criar. Nessa família, entra um jovem judeu que vive o terror de ser descoberto pelos nazis e, logo, enterrando-se na mais profunda solidão.
Penetrando agora na realidade portuguesa, crua e dura, quem não tem familiares, amigos, vizinhos que não  sentem o frio mais frio da solidão? (Não uso a primeira pessoa - singular ou plural - embora seja problema, acho au, que a todos toca). Ou porque não têm dinheiro, ou porque perderam o emprego, ou porque não se sentem amados como gostariam...
Por coincidência, no momento em que escrevo este pequeno texto, um canal de televisão transmite O Eixo do Mal. Um comentador fala da solidão do poder, a propósito de Alberto João Jardim que, em breve, deixará de plantar as suas ruidosas e suadas flores no Arquipélago da Madeira
 E eu, que gosto muito de flores, daquele género não sinto qualquer nostalgia. Já basta a solidão que, pelos mais diversos motivos, em cada um é semeada.



sábado, 3 de janeiro de 2015

Um contrato barato mas valioso


 Renovação de Contrato - 2014/2015
 
Contrato de 2014 e 2015 
Depois de uma séria e cautelosa consideração,
quero notificar-te que o nosso
 
"Contrato de Amizade"
 
será renovado no dia 31.12 as 23h59m59s
 para 2014/2015.
 

Nunca desvalorizes ninguém. 
Guarda cada pessoa perto do teu coração, 
porque um dia tu podes acordar 
e perceber que perdeste um diamante 
enquanto estavas muito ocupado colecionando pedras.
Manda este abraço para todos os que não queres perder em final de 2014 e ao longo de 2015.

Maria Rendall




















terça-feira, 30 de dezembro de 2014

VIVER É ARRISCAR-SE


Rir é arriscar-se
a parecer doido...
Chorar é arriscar-se
a parecer sentimental.
Estender a mão é arriscar-se
a comprometer-se.
Mostrar os seus sentimentos
é arriscar-se a expor-se
Dar a conhecer as suas ideias,
os seus sonhos,
é arriscar-se a ser rejeitado.
Amar é arriscar-se a não ser retribuído no amor.
Viver é arriscar-se a morrer.
Esperar é arriscar-se a desesperar.
Tentar é arriscar-se a falhar...
Mas devemos arriscar!
O maior perigo na vida está
em não arriscar.

Aquele que não arrisca nada...
Não faz nada...
Não tem nada..

Rudyard Kipling

Uma amiga enviou este poema aos seus amigos.
Acrescentou:
"Um 2015 em que arriscar seja o mote!"
Belíssima mensagem/vontade para o Novo Ano,
 acrescento eu agora!

Procura-se cinema sem pipocas

Confesso que não gosto de ouvir roer, isto é, triturar a comida. Tenho, porém, de admitir que, naturalmente, também cause esses incómodos.

 Das últimas vezes que fui ao cinema, atrás de mim, havia roedores de baldes de pipocas. A minha atenção fica dispersa com os ruídos das mãos no balde em busca dos mornos milhos moles e depois a trituração dental. A avaliar pelos decibéis, os roedores deviam fazê-lo de boca aberta e, por isso, nada discretamente.
Brrrr... apetecia-me voltar-me para trás e dizer que, pelo menos, abrandassem o ritmo do atirar para a boca o conteúdo do balde. Por outro lado, ia pensando: aguenta, aguenta, é da maneira que o esvaziamento do balde é mais rápido.

Cá para mim, devia haver uma zona para quem comesse pipocas e outra para os não consumidores; tipo zona de fumadores e de não fumadores. Os funcionários que, logo depois do filme, se apressam, com baldes, vassouras e esfregonas, a limpar a pipocada que fica no chão também agradeceriam porque a zona de limpeza ficava mais restrita.

Daria uma fotografia curiosa: toda a gente de balde na mão com os dedos a depenicar os grãozinhos lambuzões e a levá-los à boca devoradora, em gestos repetidos. O pior seria o concentrado ruído produzido. Muitas cenas se perderiam com semelhante cena. Bem, o melhor é continuar a distribuir o mal pelas aldeias, ou seja, os baldes de pipocas por diferentes cadeiras.

Não gosto nada de ser fundamentalista, mas apetecia-me dizer: abaixo as pipocas roídas com ruído no cinema!
É por isso que tenho saudades de cinemas como o Pedro Cem, das pequenas salas do Cidade do Porto, do cinema Nun'Álvares...

Se conhecerem algum, em funcionamento, no Porto, digam(-me), por favor.
Garanto que não haverá prémios e, muito menos, a oferta de um balde de pipocas!

domingo, 28 de dezembro de 2014

Olhando a ponte D. Luís



Ao sol de dezembro

Entre Mindelo e Árvore - Reserva ornitológica desde os anos 50 do século XX

Cores breves

O dia seguinte
Conheci uma senhora que em todos os Natais oferecia rendas feitas por ela: a grande parte de biltros que trabalhava com gostosa destreza.
A família e os amigos mais próximos esperavam a prenda que vinha sempre de suas mãos. As embalagens eram sacos e papéis dos anos anteriores que a velha senhora guardava num cesto vermelho com a imagem de um meigo Pai-Natal.
Quando, na véspera do Natal, o cesto ficava vazio, logo começava outros trabalhos para o ano seguinte. 
Há alguns Natais que o ritual não se repete, mas os seus presentes tornam mais nítidas as cores do passado.

As estrelas
Há um par de anos que ela guardava estrelas feitas de cartolina. Sobrepostas e de cores claras e semelhantes, em cada Natal davam nova luz à entrada da casa. Reviviam numa árvore colhida no mato, de entre os arbustos secos. 
Este ano, às estrelas ela juntou umas luzinhas pequenas, aquecendo o frio cinzento do inverno.
Muito perto, o rio passava e, mesmo sem estrelas no céu, parecia mais tranquilo.

A casa
Há casas assim. Que unem. Que chamam. Que aquecem. Que contam histórias. Que trazem lembranças. Que convocam sorridentes antes e depois.
A casa era grande. Exigente de muitos cuidados que nem sempre podia receber. As paredes brancas iam-se tornando pardas e húmidas. 
A passagem do tempo é frenética; os afazeres nascem volumosos; a balança dos gastos e dos ganhos inclina-se para o primeiro prato...
Mas, mesmo assim, a casa continua a chamar, sobretudo pelo Natal. 
 Há casas assim. Que unem...

A história
Ele escreveu a história. Ela leu-a e gostou, reconhecendo a sua capacidade para a escrita. Como gostou, ela deu-a a ler a uma amiga, que vivia no país cuja língua ele escolhera para escrever a história, e que tinha vindo passar o Natal com a família.
A amiga também gostou e disse quase ter chorado no fim.
Esta amiga disse à outra amiga que tinha gostado da história. Não sei se lhe disse que quase tinha chorado no fim.
Mas ele quase chorou ao saber que o seu trabalho era apreciado. E que teria leitores. Nem que fossem poucos. 
E sobretudo porque o Amor e a escrita o conduziam a um mundo inesgotável de cores também traduzidas por palavras.




NATAL


Imagem e poema enviados por VO. Obrigada e Feliz Tempo de Natal!
NATAL 2014

A noite na Nigéria é de Natal?
Na Síria? Na Ucrânia? No Iraque?
Natal, onde o presépio está a saque
e um clarão que brilha é fatal?

E na Guiné a música é qual?
E na Libéria qual o seu sotaque?
Por peste, por cilada, por ataque,
Dezembro pode ser o mês final.

Nascer, vai nascer, em qualquer canto,
na mansão, no palácio, no casebre,
no riso dos salões e até no pranto

do corpo na barraca a arder em febre.
Nascer, vai nascer, por seu quebranto,
em Belém, por que o fado não se quebre.


  Carlos André

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Isto não é letra de canção!



AI que saudades eu tinha
da minha rica Marianinha
Que no meu blogue vive
Mal sabe que a sua autora
sem escrever não sobrevive
mesmo não sendo escritora

Ai que saudades sentia
De escrever pequenas histórias
Que renascem de memórias
Ou que do presente se vestem
Que  captam o nosso olhar
Ficando sem querer ficar
E de preconceitos se despem

Há uns dias que cá não vinha
porque o computador pifou
No meio de reuniões
E de urgentes avaliações
A net se evaporou
Não sei se disse palavrões
No meio das tentativas
Com ideias aos trambolhões

Mas cá estou eu outra vez
Após quase vinte dias
Que fugiram como enguias
Com tanta coisa para fazer
Mas como é bom poder dizer
Boas Festas e Bom Ano
Sem prejuízo nem dano
Fazendo o Bem que se quer


O Natal...


O Natal não é ornamento: é fermento
É um impulso divino que irrompe pelo interior da história
Uma expectativa de semente lançada
Um alvoroço que nos acorda 
para a dicção surpreendente que Deus faz
da nossa humanidade

O Natal não é ornamento: é fermento
Dentro de nós recria, amplia, expande

O Natal não se confunde com o tráfico sonolento dos símbolos
nem se deixa aprisionar ao consumismo sonoro de ocasião
A simplicidade que nos propõe
não é o simplismo ágil das frases-feitas
Os gestos que melhor o desenham
não são os da coreografia previsível das convenções

O Natal não é ornamento: é movimento
Teremos sempre de caminhar para o encontrar!
Entre a noite e o dia
Entre a tarefa e o dom
Entre o nosso conhecimento e o nosso desejo
Entre a palavra e o silêncio que buscamos
Uma estrela nos guiará 

José Tolentino Mendonça, O Natal não é ornamento


Enviado pela IA no seu "Postal de Natal"
OBRIGADA. BOAS FESTAS!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Quando pego num cesto de adjetivos...

Quando pego num cesto de adjetivos escolho
os maiores, que são os superlativos; e deles ainda
o maior, que é o aumentativo. Depois, começo
a descascá-lo com a faca do advérbio, até ele
ficar restritivo, e caber na frase, onde se cola
ao substantivo para lhe dar um caráter notável,
a distingui-lo de todos os outros que não passam
de comuns e gerais. Gosto destes adjetivos
que quase passam por substantivos, e se
passeiam por entre os nomes como se eles
precisassem deles. São os adjetivos certos
porque não dão nem tiram nada ao substantivo,
nem aspiram a ser explicativos de nada, como
se já soubéssemos tudo sobre a coisa. Porém,
se cortarmos o adjectivo, e o substantivo ficar
tão simples, que cai desamparado, como
o pobre a quem roubam as muletas, logo
digo: «Oh, pobre homem!» e o homem corrige:
«Oh homem pobre!» e fico sem saber qual
dos dois é ele, enquanto não volto a meter
tudo no cesto, e faço do homem um simples
substantivo, coberto com o substantivo simples.

 In Nuno Júdice, A Matéria do Poema, Lisboa, Dom Quixore, 2008